Santo Daime, a religião da Floresta

Por Redação Entrecultura - 31/07/2017 21h44

     Algumas religiões brasileiras como Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha utilizam como sacramento a bebida sagrada Ayahuasca que em quéchua, significa “vinho das almas” e é feita a partir da cocção de duas plantas: o cipó Jagube ou Mariri (Banisteriopsis caapi) e da folha Rainha ou Chacrona (Psychotria viridis).

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Esse é um assunto recorrente na agenda política contemporânea que envolve a discussão em torno do uso de “drogas”, categoria volátil e imprevisível, já que diversas compreensões e concepções se revelam e se modificam através dos tempos e entre as culturas.

Acordos e tratados internacionais estabelecem quais substâncias são “drogas” ou não, o que gera políticas proibicionistas em relação às mesmas. Portanto, o que entendemos por drogas é fruto de um contexto político, histórico, social e cultural.

Termo como alucinógeno, para se referir à ayahuasca ou outras plantas de poder soa pejorativo, preconceituoso e inadequado, posto que o significado de alucinação é segundo o Dicionário Houaiss: “uma perturbação mental que se caracteriza pelo aparecimento de perturbações visuais, auditivas, etc., atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem”, enquanto que as experiências relatas pelos usuários de ayahuasca ou outras plantas de poder como cogumelos (Amanita muscaria), cactos (peiote) entre outras, são de encontros com divino, enteógeno ou enteogênico que significa “manifestação interior do divino”, seria o termo mais adequado ou ainda, psicoativo, termo também usado para as substâncias expansoras de consciência.

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É importante pontuar que, desde o início dos anos de 1980, a regulamentação e o uso da ayahuasca no Brasil, vem sendo estudado e discutido multidisciplinarmente por antropólogos, psiquiatras, psicólogos, representantes da divisão de narcóticos da polícia federal, teólogos, entre outros e é pioneiro no que diz respeito ao tema. A Resolução 05/04 do CONAD (Conselho Nacional Antidrogas) reconhece a legitimidade jurídica do uso inclusive por mulheres grávidas e crianças.

Embora tenha surgido como fenômeno nacional no início dos anos 1980 com a publicidade dada através de personalidades e celebridades, sua origem remonta ao período pré-colombiano, e somente no final do século XIX foi descoberta por pesquisadores ocidentais. Sua composição química é formada pelas betacarbolinas harmina, harmalina e tetrahidroharmina, encontradas no cipó, enquanto a folha contém um único alcalóide principal, a N,N-Dimetiltriptamina – DMT.

A investigação dos aspectos farmacológicos da ayahuasca continua a ser aprofundada na comunidade científica, entretanto, há consenso na literatura de que a atividade psicoativa primária da bebida decorra da atuação sinérgica dos alcalóides das duas plantas, na qual o efeito de inibição reversível sobre a MAO-A das betacarbolinas permite que a DMT seja ativada por via oral. (Castello & Brito 1999; Mckenna 1984; Rivier & Lindgren 1972),.

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As primeiras pesquisas com ayahuasca tinham como objeto de investigação especialmente os aspectos antropológicos, botânicos e fitoquímicos, apenas em 1993 foi conduzida a primeira investigação de seus aspectos biomédicos, o Projeto Hoasca. Em Manaus – na amazônia brasileira – pesquisadores de dez instituições de três países, liderados pelos cientistas americanos Mckenna e Grob, conduziram um estudo-piloto multifacetado que avaliou aspectos farmacológicos, clínicos e de saúde mental em quinze membros experientes da UDV, comparando-os a um grupo-controle de indivíduos sem experiência prévia com a bebida. O que observou-se foi que dos onze indivíduos pesquisados que faziam uso de bebidas alcóolicas ou outras substâncias como cocaína, anfetaminas e nicotina, todos descontinuaram o uso após consumo regular do chá ayahuasca em contexto religioso. A experiência ritual com a bebida foi, para todos, ressignificante em suas vidas. (Grob 1996; Mckenna 1998; Mckenna 2002).

Mais recentemente em 2016 o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor) e o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB-UFRJ) publicaram em revista especializada que o Santo Daime deve ajudar no desenvolvimento de tratamentos contra o Alzheimer: a harmina, betacarbolina encontrada no cipó, é capaz de aumentar a proliferação de progenitores neurais humanos em até 70%; anteriormente, em 2015, a Revista Brasileira de Psiquiatria havia publicado artigo sobre estudo desenvolvido pelo Departamento de Neurociência e Comportamento da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto de que a ayahuasca pode ser útil no tratamento da depressão; a revista científica Nature também publicou no mesmo ano, trabalho desenvolvido pelo Instituto do Cérebro (Ice) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sobre o uso do chá sagrado no tratamento da depressão.

Os benefícios são muitos, especialmente comprovados em uso ritual, única condição regulamentada no Brasil: o Santo Daime é seguro, mas só deve ser consumido em contexto religioso e conduzido por pessoas experientes.

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Pode-se afirmar que a religião do Santo Daime é marcada por uma “nova” maneira de lidar com a saúde e a doença e se expressa na ingestão da bebida sagrada e na relação corpo-mente-espírito. Os rituais acontecem quinzenalmente (dias 15 e 30 de cada mês) com as sessões de concentração, havendo também outros trabalhos em seu calendário e para o participante de primeira vez é exigido (por determinação do CONAD) a aplicação prévia (antecedência mínima de 3 dias) de uma entrevista anamnese que seria um levantamento da saúde física, mental e espiritual do neófito e o momento em que ele recebe as orientações necessárias (jejuns, vestimentas, preparação corporal e mental) para o melhor aproveitamento da sessão. Qualquer pessoa após passar por esta anamnese está apto para participar das sessões: se toma algum medicamento que não é compatível com a administração da ayahuasca é desaconselhado a fazer uso concomitante das duas substâncias, devendo consultar seu médico; em se tratando de menor de idade, é necessária a autorização do responsável que no caso é quem assinará o termo de compromisso.

O Santo Daime é uma religião que se utiliza de elementos de várias tradições religiosas e escolas esotéricas: desde o catolicismo popular como a Festa do Divino Espírito Santo, o Baile de São Gonçalo, as religiões afro-brasileiras, a cultura dos seringueiros da Amazônia, a pajelança maranhense, o vegetalismo ayahuasqueiro, até os ensinos do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Fundada pelo maranhense Raimundo Irineu Serra nos anos de 1930 é uma religião cosmocentrista: o cosmos, o universo é a própria manifestação de Deus, e Este está presente em todas as coisas, inclusive dentro de nós mesmos; além de resgatar e valorizar intensamente os estados alterados de consciência (chamados pelos adeptos de “miração”) como forma de alcançar a iluminação espiritual, não só por meio da ingestão do chá (também conhecido como Daime, yagé, ayahuasca, Vegetal, caapi), mas também pelo canto repetitivo de hinos, pois é uma doutrina musical, os hinários (conjunto de hinos) são ditados diretamente do mundo astral, e contém ensinamentos, poder de cura e revelação, constituem para os daimistas como “um novo testamento”.

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A bebida tem íntima relação com a cura de enfermidades físicas, mentais e espirituais: “tomar ayahuasca, que também é conhecida como la purga, é concebido como uma maneira de “pôr para fora” as doenças, estados de espíritos negativos e outras fontes de problemas e infortúnios” (MACRAE, 1992. p. 54), por isso algumas pessoas têm diversas reações como vômitos, diarreia, sudorese ou mesmo através das lágrimas: para os religiosos esses efeitos fisiológicos são “limpezas”. O corpo é onde habita o espírito, é a casa, o trono, é o aparelho onde o superior (espírito) se materializa e se transforma. O nome “Daime” significa a invocação espiritual que deve ser feita pelo fiel ao comungar com a bebida: dai-me amor, dai-me força, dai-me luz.

Texto: Theresa Jaynna de Sousa Feijão

Mestre em Antropologia pela UFPI
 Coordenadora projeto de arte, educação e cultura “Gira gira criancinha”

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