A mulher do fim do mundo: entrevista especial com Elza Soares

Por Redação Entrecultura - 29/06/2018 00h00
Colaboração especial de Carmen Kemoly

 

“Já nasci música, chorava cantando”. Elza Soares, que estourou em 1960, em plena  Bossa Nova, acusada de ser a mistura do samba com o jazz, dominava os dois ritmos, mas não se denominava Bossa Nova. Suas entonações de voz surpreendentes e em variados estilos lhe conferiram o título de “cantora do milênio” em 2000 pela BBC de Londres. Ela afirma que quando pequena não possuía rádio em casa, seus ensaios eram brincando com o swing da voz dentro da lata d’água, que carregava na cabeça enquanto lavadeira. Elza é personagem viva, que comprova como a criatividade da razão e sensibilidade negra é inventiva e autêntica.

Elza Soares (Foto: Daryan Dornelles)

Cantou pela primeira vez  em 1953, no programa de calouros do Ary Barroso, compositor do clássico Aquarela. Nessa ocasião surgiu a clássica frase “Vim do Planeta Fome”, após ser humilhada por ser negra e não estar bem vestida.  Após Elza se apresentar, Ary Barroso arrematou:  Acaba de nascer uma estrela.

Mas, a estrela já havia nascido antes do show de calouros. Elza desceu o morro no Rio de Janeiro dizendo que a favela é socialista, pois tudo se divide, cantou com grandes maestros e dividiu palco com grandes nomes da música brasileira: Elis Regina, Gal Costa, Clara Nunes, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Gravou canções dos compositores Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Paulinho da Viola, Jorge Ben, Dorival Caimmy, Gonzaguinha além do próprio ex-marido, o futebolista Garrincha. Percebe-se aqui que Elza desde  cedo vivia em um ambiente dominado por homens. No início dos anos 2000, ela lamentou não haver muitas artistas negras cantando samba e afirmou que aquilo era “um pecado”.

Na Inglaterra, sua música é conhecida como ”acid jazz’, mas, ela também não esquece que já foi roqueira e coloca diversos desses elementos em seus shows, que possuem forte caráter de denúncia, tudo embalado por sua magnífica voz, repleto de sonoridades e intervenções visuais.

Elza Soares: a verdadeira mulher do fim do mundo (Foto: Stephane Goanna Munnier)

Elza tem um lado na história. Durante o período da Ditadura Civil-Militar, ficou alguns anos exilada na Europa com o então marido Garrincha. Um último acontecimento emblemático foi o cancelamento de um show seu no Rio de Janeiro, por ordens da Prefeitura. O lado que Elza Soares escolheu canta, grita. Seus dois últimos discos de inéditas, “A Mulher do Fim do Mundo” (2015) e “Deus é Mulher” (2018), falam por si.

Essa mulher do fim do mundo decidiu nos conceder uma entrevista, e nós, do Entrecultura, resolvemos pedir a contribuição de algumas mulheres, que enviaram suas perguntas. Confira!

Como você percebe, enquanto mulher de favela, a situação da mulher negra, trabalhadora na atual conjuntura? Quais os avanços e os retrocessos que podemos verificar na vida dessa mulher? – Fabíola Lemos, professora.

Elza Soares: Ser mulher, negra e pobre neste país não é fácil, principalmente para aquelas, que como eu, não se conformam com pouco. É uma luta diária, todos os dias temos que provar que somos capazes, que merecemos o lugar que desejamos, que não abaixamos a cabeça e obedecemos os nossos carrascos… Avançamos muito pouco, temos muito que gritar e lutar ainda. O Brasil é um país machista e preconceituoso, não podemos esquecer disto.

Qual a situação mais difícil que você enfrentou durante um show? – Olga Victória, cantora e vocalista da banda Olga e O Mar.

Cantar no dia em que minha mãe morreu. Foi trágico demais, parecia que eu estava anestesiada. Tem horas que nem sei de onde consigo tanta força.

“Deus é mulher” é o mais novo disco de Elza Soares (Foto: Stephane Goanna Munnier)

O que fez com que você, diante das dificuldades, continuasse lutando e usando sua música como arma política? Qual o recado que você tem para as jovens pretas? – Brenda Mendes, estudante e integrante do Coletivo Atitude Preta.

Eu sempre soube o que eu queria, sempre acreditei que eu seria capaz de chegar no lugar que ocupo hoje. Não pense na dificuldade, erga a cabeça e siga em frente. A musica ainda é remédio bom para a alma. A minha música é um alerta para esse povo que deseja um país melhor, esse povo que carrega esse Brasil nas costas..

Qual o papel do feminismo negro na arte que você produz? – Lorena Varão, mestra em Direito.

Lembrar essas mulheres maravilhosas o valor e auto-estima que cada uma trás dentro de si. É a mulher negra pedindo passagem com orgulho!

Elza usa sua voz para enaltecer e defender os direitos da mulher negra (Foto: Erick Amarante)

Como o seu ser mulher negra está em “A Mulher do Fim do Mundo” e “Deus é Mulher”? – Sueli Rodrigues, professora de Direito.

Estou ali completamente, lutando pela mulher, pelo negro e pelo gay sem parar. Quero gritar muito, fazer bastante barulho, tem muita gente dormindo…

Como foi para você, mulher negra, ter ascensão na música em uma sociedade brasileira tão racista ? – Esther Lima, cantora.

Te garanto que não foi fácil, quebrei muitas barreiras. Fui uma das primeiras negras a frequentar locais onde somente a elite branca frequentava, a minha voz me colocou neste lugar. Devo muito a minha voz. Minha voz negra.

Qual o maior desafio em ser uma mulher negra e na melhor idade? – Maria Laura, coordenadora do Grupo Piauiense de Transexuais e Travestis (GPTRANS).

O meu maior desafio é mostrar que ainda estou aqui trabalhando e incomodando muito… (Risos)

 

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