A maré sempre muda: Entrecultura entrevista Hugo dos Santos

Por Redação Entrecultura - 06/08/2018 10h11

Hugo dos Santos é um dos nomes da nova geração que movimenta Teresina. Canta, toca e compõe, não necessariamente nessa ordem. O artista nasceu no estado do Mato Grosso, mas é mesmo Maranhense-Piauiense. No Maranhão, passou infância e início da adolescência, até que, aos 15 anos, veio para Teresina, onde assistiu ao seu primeiro show de rock. A partir daí inicia seu relacionamento irreversível com a música: no começo, pedindo o violão de amigos para tirar um som, até comprar o seu, com “dinheiro de rapaz trabalhador”, tal qual o João de Santo Cristo.

Sua primeira banda foi a Captamata, onde começou a compor. Passou pelas bandas Trinco, Guardia, Regaplanta, Fragmentos de Metrópole, e se estabeleceu com seu trabalho solo, acompanhado de músicos talentosos.

Hugo dos Santos (Foto: Natália Hisse)

Aos 33 anos, Hugo é pai de Gabriel, espera o Tomé e mais outros filhos, como o projeto Tupi Machine. O artista bateu um papo com o Entrecultura, falando sobre música, família, Teresina e planos. Confere!

Entrecultura: Você nasceu no estado do Mato Grosso. Como veio parar no Piauí?

Hugo dos Santos: Meus pais são do interior do Maranhão. Meu avô não queria a relação deles, porque meu pai já tinha filhos e minha mãe era muito nova. Daí, com a coragem do amor, eles resolveram fugir juntos. Acabou que foram parar no Mato Grosso, na cidade de Peixoto de Azevedo. Meu pai foi em busca de tesouro e conseguiu dois filhos como recompensa. Meu irmão e eu nascemos por lá. Depois, fomos morar em São Luís-MA, e voltamos, anos depois, para Dom Pedro-MA, onde passei minha infância e começo da adolescência. De lá, vim morar sozinho em Teresina, acho que eu tinha 15 anos quando cheguei aqui. Hoje, tenho 33,um filho (Gabriel) nascido na Evangelina Rosa e estou esperando mais um filho, o Tomé, que chega fim de agosto.
Abro o disco Hugo dos Santos assim: “Meu povo, me dê licença, minha mãe a sua benção, tenho um verso pra cantar. Venho lá de onde não lembro,cresci no colo do vento, chorei na hora de andar”. Esses versos resumem um tanto de como me sinto sobre essas mudanças que são bem avoantes na memória. Minha base toda de lugar é o Maranhão e o Piauí, mas, minha casa é em Teresina, e a dos meus pais e avós no interior do Maranhão. Somos ligados por um rio e amor.

Entrecultura: Quando e como você inicia na música profissional?

H.S: A música mudou toda a minha forma de viver. Quando criança, tio Nelson em São Luís sempre botava discos de boi-bumbá do Maranhão para meus primos e eu ouvirmos dançando. Mais para frente um pouco, cantei em um karaokê em uma festa da família, alguém elogiou. Depois, em Dom Pedro, conheci um cara (Serjo) que tocava tudo do Raul Seixas, Legião Urbana e Adriana Calcanhoto, fiquei louco para aprender também, toda vez que eu via um violão, mesmo antes do Serjo, eu já tirava um som, um ritmo. Um amigo tinha um violão e eu enchia o saco dele pegando sempre emprestado, e assim foi até eu ter meu primeiro violão, já adolescente/jovem, que comprei com meus primeiros salários na vida de estudante e trabalhador em Teresina. Em Teresina foi onde vi meus primeiros shows de rock e outros tantos ritmos que via as pessoas tocarem por aqui. Depois, conheci os amigos e amigas da Captamata, que considero meu começo como compositor, com um pensamento de me aprofundar, expandir minhas formas de expressão e sensação. O universo artístico é onde me sinto melhor.

Entrecultura: Como é seu processo de composição musical?

H.S: Às vezes passo meses dedilhando o violão tentando me perder dos padrões já habituais em nossa consciência musical, fico delirando e muito me repetindo, até que algo que sempre esteve ali se amostra, e é uma alegria só. Às vezes vem de sentimentos muito dolorosos também, e aí me deixo ir,não sinto medo, apenas deixo estar. Já fiz algumas músicas aos prantos, um mix de lágrimas de dor e de felicidade, alívio, amor…

Entrecultura: Quem compõe a banda que lhe acompanha?

H.S: Toco sempre que possível com quem consigo uma sintonia, e assim tem músicos que toco com uma certa frequência em cidades e estados diferentes, mas até hoje os músicos que mais tocam comigo e isso vem desde 2010, são o Lucão, que toca comigo desde a Trinco, depois, acho que em 2011 veio o Lívio Nascimento, o Javé, e um pouco depois o Igor Melo. Com esses eu já vivi muita coisa, uma vida. Hoje, com a Tupi Machine, tem o Nildo (músico Paraibano que hoje mora em Teresina), Mestre Arnaldo (Rock Moreira) e Jean Richard (DJ PTK). Jean é meu parceiro em várias produções de alguns músicos de Teresina e em alguns projetos sociais, já estamos indo para três anos de trabalho juntos.

Entrecultura: Como avalia sua trajetória musical?

H.S: Vejo uma transformação constante. Das primeiras demos gravadas com a Captamata,depois Trinco, Guardia, Regaplanta, Fragmentos de Metrópole,Trincado, Hugo dos Santos ,e agora a Tupi Machine.É importante para mim a mudança,me sentir em movimento, e durante esse tempo de produção fiz coisas, por exemplo, no CAMPO, com experimentos de reinvenção do som urbano cotidiano em Teresina, daí surgiu o que hoje está virando Tupi Machine. Fiz trabalho com Marcelo Evelin, passei dois anos em um laboratório sonoro com a banda Rieg. Apresentações em inúmeros formatos de banda, ou só eletrônico, sons captados nas ruas e lincados com instrumentos acústicos e performance… Também tem o coletivo Ultrópico Solar, de Parnaíba, um movimento forte de compositores e artistas visuais, já gravamos algumas coisas juntos e tem outras tantas que acho sai esse ano ainda. Tudo isso que vamos vibrando transforma, e, mesmo te derrubando às vezes, te fortalece depois. “Não sei para onde vou, mas sei que estou no meu caminho”.

Entrecultura: Recentemente você lançou o single “Charlie Chaplin”. Como essa figura te inspira?

H.S: Na casa da minha avó materna sempre teve alguns quadros do Charlie Chaplin, já dialogo com ele desde criança. Depois vieram os filmes e tudo que ouvi falar dele até hoje. Charlie Chaplin foi feita em Pedro II,em uma viagem delirante com a banda Fragmentos de Metrópole e outros amigos e amantes.

Entrecultura: Qual sua avaliação sobre o atual cenário da música local?

H.S: O cenário musical em Teresina está voltando a ter vários nomes com um trabalho muito forte. Nos últimos anos você via poucos nomes com uma produção constante e com a força necessária para manter uma estética viva, uma verve acesa que acompanhei, por exemplo, quando cheguei em Teresina, com Narguilê Hidromecânico, Os Caipora, Eita Piula, Nando Chá, Obtus,Lado 2 Stereo,e tantos outros… Hoje temos alguns trabalhos muito fortes, como Preto Kedé,Severo, Alcaçuz, Cajú Pinga Fogo, Flip, Aloha Haole, Bia e os Becks, e outros novos projetos que a gente vê surgindo na cidade. Tem toda uma galera nova no rap, no reggae e no metal. As produções estão cada vez mais fortes com o acesso a conhecimentos tecnológicos e muito estudo, trabalho.

Hugo dos Santos e DJ PTK (Foto: Maurício Pokemon)

Entrecultura: Fale um pouco sobre o projeto Tupi Machine.

H.S: A Tupi Machine começa a partir de um experimento que aconteceu no Evento Curva, uma proposta em parceria com o espaço CAMPO. Nesse período, em parceria com a Manu (teatro/Sarminina) fizemos algumas captações de sons de ruas de Teresina e a Manu fazia o percurso como andarilha em caos/busca. Essa camada visual e sonora era projetada em uma sala como espelho da Manu que estava em performance na sala. Jean e eu fazíamos algumas bases antes e uníamos com camadas sonoras feitas no instante da apresentação… Esse trabalho nós continuamos a desenvolver, e entre fim de agosto para começo de setembro iremos soltá-lo no universo virtual, assim como a apresentação também em corpo presente astral.

Entrecultura: Quais os planos para esse semestre?

H.S: Estamos concluindo a fase de apresentação da Tupi Machine e interligando os elementos que nos são apresentados. Todos esses anos de experimentos estão em nossa forma de expressão. O que vem já estava,só estamos mudando a forma de perceber. Ampliando, que os ventos sabem das coisas.

Entrecultura: Poderia deixar um recado ao público do Entrecultura?

H.S: A maré sempre muda.

 

 

Comentar