Documentário piauiense “Mulheres de Visão” leva prêmio de Melhor Direção em festival na Bahia

Por Redação Entrecultura - 27/10/2018 08h00

O documentário piauiense Mulheres de Visão (2018), da jornalista jornalista Milena Rocha, ganhou o prêmio de Melhor Direção na Mostra Nordeste do Festival de Cinema Universitário da Bahia: Cine Virada. O filme apresenta mulheres cegas e com baixa visão, seus depoimentos e suas rotinas, com uma característica que merece destaque: é uma das primeiras produções piauienses totalmente acessível, com tecnologias assistivas como Libras, audiodescrição, Closed Caption e legenda em inglês.

Milena Rocha com o prêmio de Melhor Direção (Foto: Cine irada)

O filme foi produzido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Milena, que se formou em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí. A ideia de trabalhar essa temática sempre esteve com Milena, que já trabalhava com pessoas com deficiência antes de ingressar na graduação. “O Mulheres de Visão nasceu quando começamos a conversar sobre o Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão em 2014, quando organizamos um encontro e dialogando com as mulheres elas diziam, ‘nossa vida rende um filme’, e eu sempre dizia ‘vamos fazer’”, coloca Milena.

Outro fato interessante é que as mulheres filmadas integram a ficha técnica do documentário. “É a ideia de trabalhar não só uma identidade representada, mas a auto-representação, ou seja, fazer com que essas mulheres entrassem na equipe de produção do filme. Aprendi na prática o que é lugar de fala, por elas estarem na equipe, fazendo roteiro, entrevistas, produção, entendi como elas enxergam. Não tem prêmio que descreva isso, aprender o que é lugar de fala, até onde eu posso ir enquanto tento representar uma identidade, ou se ela mesma não pode se auto-representar”, explica.

Em cena aparecem quatro mulheres: Dilma, Denise, Teresa e Creuza. Suas falas e suas rotinas são retratadas a partir dos eixos família, trabalho e cidade. “Fizemos as entrevistas em estúdio e trabalhamos uma fotografia que remete ao pensamento, a memória, saímos do tradicional, tudo preto, para uma coisa mais clara”, diz Milena.

Como o documentário é um TCC, Milena contou com a orientação da professora Ana Regina Rêgo, do curso de Jornalismo da UFPI. “Minha orientação foi liberta e acreditada, ela me orientou muito bem. Por exemplo, eu sou muito perfeccionista e dizia ‘professora, vou ter que repetir essa entrevista’ e ela dizia ‘não, isso está bom, você tem que cuidar nas outras coisas’, então, ela foi uma pessoa que acreditou no trabalho, dizia ‘eu tenho certeza que ai sair maravilhoso, faça’. Foi um processo muito gostoso, de muito aprendizado”, avalia.

O filme já havia se destacado em Teresina ao ser exibido na Parada de Cinema deste ano. No Cine Virada, festival que acontece em Cachoeira, interior da Bahia, Milena conta que se inscreveu despretensiosamente, com o objetivo de conhecer as pessoas e as produções., “Me inscrevi no festival no intuito de conhecer o pessoal, de me inspirar, conversar, passei os dias assistindo filmes, fazendo experimentações, então, só de ir já tinha valido a pena, era uma coisa muito inesperada, esse prêmio”, argumenta.

Mulheres de Visão foi desenvolvido dentro do Coletivo LabCine, que já ganhou alguns prêmios e tem atuado bastante na produção e discussão sobre cinema independente em Teresina. “O LabCine foi uma introdução muito prática, porque eu sempre fui da produção, da entrevista, não era de pegar em câmera, foi com o coletivo  eu consegui me empoderar enquanto pessoa que pode trabalhar com a técnica. LabCine rompeu essas amarras, me mostrando que eu era capaz de fazer qualquer processo, desde que esteja imersa, e a gente aprende técnica é fazendo”, finaliza.

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