“Se a gente não tiver uma corda forte, vai quebrar”: Entrecultura entrevista Preto Kedé

Por Redação Entrecultura - 01/12/2018 00h10

“Antigamente o sistema temia o hip hop”. É em tom de desabafo que Preto Kedé fala. O artista recebeu o Entrecultura em sua casa na Vila São José, zona Sul de Teresina. Em uma manhã quente, regada a muita água gelada, Cledeilson Barreto de Araújo concedeu uma entrevista a nossa equipe. O rapaz de voz mansa e mente rápida conversou abertamente sobre assuntos como hip hop, política, música, e o que mais lhe faz brilhar os olhos: sua quebrada.

Iniciado no hip hop através do pai, já na adolescência trabalhou para fomentar a cultura na sua comunidade, que na época sofria com intensidade por conta das disputas de grupos rivais. Com o passar dos anos foi quebrando barreiras e, através do rap, conseguiu amenizar a rivalidade entre comunidades, principalmente com a criação do grupo A Irmandade. É sobre esse percurso trilhado que o artista fala, lembrando de momentos difíceis como a época em que foi acusado de ameaçar de morte o atual secretário de Segurança Fábio Abreu, após lançar um rap criticando a ação da Polícia Militar, citando o então capitão. Preto Kedé fala sem medo.

O encontro com o hip hop

O artista lembra que teve o primeiro contato com a cultura ainda criança na Praça Pedro II, Centro de Teresina, para onde seu pai lhe levava. “Eu sempre gostei de música, desde pivete, antes mesmo de conhecer o hip hop. Lembro que rolava umas rodas de breaking na PII [Praça Pedro II] e meu pai conhecia essa galera. Ele via que eu tava nessa ideia de querer dançar, cantar, ele comprava umas fitas de rap e comecei a curtir. Comecei a praticar a dança, mas como não tive muito futuro na dança comecei a ir para o lado do rap, onde descobri meu talento a partir da primeira letra, tinha uns 11 anos. Depois, conheci um espaço no CSU do Parque Piauí, era o projeto Vida Periférica. Nessa época, como meu nome é grande, as pessoas me chamavam de Clede, de Kedé e acabou pegando o nome Preto Kedé”, relata.

Hip hop na comunidade

Após esse primeiro contato com o hip hop, Kedé e seu irmão, Cleonilton, começaram apresentar o rap na Vila São José. “A gente era novinho e botava um som na praça, com umas batidas, umas bases gringas que a gente comprava e fazia a letra em cima. A galera via a gente bem novinho e se admirava, aí começou a interação com a galera e daí começou montamos nosso primeiro grupo, Atitude de Rua. Era eu, o Cleonilton, Fernando e Clécio, esse já não está mais entre nós”, conta.

A Irmandade

Duas comunidades marcadas pela rivalidade. Na Vila São José, Preto Kedé e Cleonilton. Na Vila Santa Cruz, Lu de Santa Cruz e Júlio. Em 2003, através do projeto Vida Periférica os quatro se conhecem e formam A Irmandade, grupo de rap que permitiu que as duas vilas amenizassem os conflitos. “Naquela época tinha muitos confrontos de gangue, o Lu e o Júlio eram de uma quebrada e nós daqui, a galera daqui não podia ir lá e vice-versa. Quando a gente se uniu e montou A Irmandade quebramos um tabu, conseguimos unir as gangues, metemos a cara, tanto que as gangues diminuíram. A ideia de unir as quebradas conseguimos concretizar, mas veio uma geração nova, que não pensa muito e a galera entrou em guerra de novo”, explica.

Rap polêmico

Inconformado com certas ações policiais truculentas, Preto Kedé resolveu escrever uma letra que virou o rap intitulado “Ira”, onde, em meio a sua crítica, citou alguns nomes de agentes da segurança pública, dentre eles, o então capitão do Rone, Fábio Abreu, hoje secretário de Segurança do Piauí. A música viralizou nas redes e a princípio repercutiu de forma negativa na grande mídia. “Eu escrevi em uma época em que tava muito revoltado com a polícia, teve um tempo em que a polícia aqui tava muito truculenta, pegando qualquer pessoa, agredindo, tirando onda, humilhando, e eu, como rapper, aproveitei, mandei a letra e na revolta citei os nomes mesmo, Fábio Abreu, por ser um responsável, porque se algo acontece é culpa deles também, e o Avelar, que era um cara que metia o louco na quebrada. Mandei a letra, joguei na internet e deixei ‘truar’, só não imaginava que ia rolar essa repercussão. Acordei um dia no pânico, minha mãe me acordando, quando olhei para a televisão já tava rolando, o pessoal me estragando, dizendo que eu era de Brasília, que eu tinha porte ilegal de arma, que eu era matador de policial, várias mentiras, jogaram a sociedade contra mim e tem gente que ainda hoje acredita. Mas isso deu uma coragem na galera daqui, porque a galera tem medo de falar. Depois disso vi que a galera tava querendo falar, chegavam pra mim dizendo ‘Olha, Kedé, um policial ali me abordou de um jeito que não gostei e eu falei um monte de coisa pra ele’, assim, nós encorajamos a galera”, avalia Kedé.

Deixa a Chuva Cair

A Irmandade existiu até 2016. Antes disso, o documentário Deixa a Chuva Cair, de Juscelino Ribeiro, mostrou, sob a ótica do grupo, a realidade da zona Sul de Teresina, marcada sim pela violência e pela desigualdade social, mas também pelas pessoas íntegras, resistentes e esperançosas de dias melhores. “A mídia não mostra o lado bom da periferia, o massa desse documentário é que mostra esse lado bom, porque a mídia só mostra o tráfico, só coisa ruim. No documentário não só a gente do grupo fala, a comunidade fala”, diz Kedé.

Preto Kedé atualmente

Há dois anos o artista montou o selo Brooklin Filmes, estúdio e produtora de audiovisual. Por meio deste, lança seus trabalhos independentes. “Lancei agora uns afrobeats e reggae. Na verdade eu quero pegar tudo, rock, reggae, afrobeat, samba, quero falar de outras coisas. Recebo muitas críticas, porque a galera não entende, eu tenho meu trabalho musical e meu trabalho social e não misturo os dois, quero me expressar bem nos dois”, argumenta.

Resistência

No início deste ano, o Centro de Vivência de Idosos da Vila Santa Rita, há anos abandonado, foi ocupado pela comunidade da zona Sul, dando início a ocupação Comunidade Resistência, movimento encampado por Kedé e sua família, bem como outras ações que o rapper corre para desenvolver, a fim de ajudar no progresso dos seus. “Minha vida é dedicada a isso, abri mão de muita coisa para viver isso. Agora mesmo vamos fazer um evento beneficente para ajudar a comunidade, tem uns irmãos na correria que não estão conseguindo nem se alimentar, o básico”, destaca.

O hip hop atualmente

Por fim, Preto Kedé avalia a atual cena do hip hop. Para ele, o muita gente no movimento tem deixado de bater de frente contra o sistema. “Um dia desses uns policiais chegaram aqui e pegaram uns caras, os caras estavam sem nada, mas eles disseram ‘acabou a palhaçada’, que Bolsonaro tinha dado permissão para matar, que se brincasse agora iam matar mesmo, olha a ideia da polícia! Imagina a partir de janeiro, como vão agir? Aí você não vai poder falar nada, correndo o risco de morrer. É nisso que o hip hop está perdendo, porque antigamente o sistema temia o hip hop, a galera batia de frente, hoje a maioria só está usando o hip hop”, coloca.

Para o artista, a nova geração do rap é ‘mimada’, e não está atentando tanto para a periferia, base da cultura hip hop. “Tem uma geração mimada, que chegou na parte boa e só quer deitar na cama, mas tem que aprender, saber da história de quem está há muito tempo e respeitar a galera que está na luta. Tem gente nova que nem procura conhecer, é um falso empoderamento, um empoderamento nas costas de que está há muito tempo. Vai chegar um momento em que vai estar todo mundo no pânico com esse Bolsonaro, e o que dá voz a periferia é o hip hop, se a galera se afastar disso, todo mundo perde, porque a polícia vai chegar pior, o sistema vai chegar pior, essa sociedade, que é racista, preconceituosa, vai chegar pior, e se a gente não tiver uma corda forte, vai quebrar”, finaliza.

Acompanhe o trabalho de Preto Kedé através de seu canal no Youtube.

 

 

Por Thais Guimarães

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