Entrecultura entrevista o músico Daniel Filipe, que lança seu primeiro álbum de inéditas: Tempo Inflamado

Por Redação Entrecultura - 01/01/2019 00h10

O selo Solar 6 Voltz abre seus trabalhos com o lançamento do disco “Tempo Inflamado”, do parnaibano Daniel Filipe. O álbum autoral conta com dez faixas, música popular de qualidade, feita por um jovem artista que se inquietou por cantar a inflamação de um tempo misterioso.

Daniel Filipe (Foto: Germana Ribeiro)

Produzido por Fábio Christian e Levi Nunes, o CD já está disponível nas plataformas digitais, e em breve será lançado com shows em Parnaíba e Teresina. O Entrecultura entrevistou Daniel Filipe, que falou sobre esse trabalho e o caminho percorrido para sua concretização.

Em suas respostas, Daniel evidencia o sentimento de coletividade, citando inúmeras pessoas que fizeram e fazem parte de seu caminho, na vida e na arte. Confere!

Entrecultura: Por que cantar o tempo e sua “inflamação”?

Daniel Filipe: Cantar o tempo é ser mais um a falar sobre um “tempo” que não se consegue descrever em uma única letra, relato oral de memória ou em quatrocentos tomos de livros teóricos. Mas falar sobre essa inflamação circula entre a experiência. Entre a nossa relação com o mundo. Como fomos constituídos? O que nos deixa em “pé de guerra” com esse mundo? É a cultura em seu sentido mais amplo. É também ideológico, como na constituição de qualquer indivíduo – artista ou não. E também o nosso universo do sentir. Como se passa no cotidiano… É um momento que realmente “sentimos muito” – sendo muito irônico. Mas também existem vários momentos para se respirar e se viver/sofrer catarses, e de procurarmos como sentir isso também. “Ufa…” Mas, no início, era pra mim uma espécie de relato sobre um período da vida. Perguntas necessárias para esse período. E a relação que acontecia entre esse ”eu” e a condição com o todo que me (nos) cerca(va). Isso refletiu muito em algumas composições e produções pela Ultrópico Solar e em parcerias, também em outros projetos. Criação de “lugares-ação” como a “fulanisséia”, por exemplo – para quem vem nos acompanhando. Mas essas perguntas necessárias, para mim e para muitos que se identificaram com elas, são direcionadas aos processos de inflamação dos medos, das bipolarizações, “sebastianismos” e maior violência de um período que vai além da minha própria experiência – e olha que eu não estou falando somente de um período eleitoral ou “tempo da política.” Me cativava (e cativa) a ideia de fazer uma espécie de curadoria dentre essas letras e canções. Perceber como isso tudo se reflete em nosso cotidiano. No “sentir”, que, na verdade, é pelo que me interesso no meio disso tudo. “Tempo Inflamado” vem de uma poesia que virou música, que dá nome ao álbum (ou o contrário – no sentido dele dar muita substância à música). É cheia também de várias perguntas.

Entrecultura: Como foi a concepção deste disco? E o processo de gravação?

D.F: Decidi fazer um trabalho autoral solo, que vinha sendo estruturado na minha cabeça fazia uns dois anos, mais ou menos – no que se refere às composições, que eram e são muitas. Foi também resultado de muita angústia da espera de um trabalho em conjunto, que vai sair ainda, com a Ultrópico, que como banda também era “Porto Fantasma” (complicado explicar a natureza dos acontecimentos). Foi também uma espécie de fuga, saída para fazer o que eu gostaria de falar no momento. Isso tudo no meio de pesquisas acadêmicas e projetos que demoravam mais que este. Só esse projeto que eu citei é um trabalho de uns três anos, mais ou menos. Junto com Levi Nunes, Lucas Linhares, Danilo Carvalho, Tahiana Meneses e Savina Alves procuramos os primeiros caminhos em “guias” do álbum “Tempo Inflamado” a partir do eu que já havia pensado para as músicas. Acolhendo a enorme musicalidade, criatividade, liberdade e sensibilidade de cada um, queridos que admiro muito, admiração essa que vai além do nosso esforço mútuo em resistir fazendo música em nosso estado – e maior esforço ainda quando se fala do interior-litoral, Parnaíba, mas também pelo vínculo que desenvolvemos com o tempo. A sensibilidade nas letras da Savina, nas do Levi, do André Oliveira… A alma dos arranjos do Lucas… Também de produções que extrapolam o campo da música, como as da Tahiana, na sociologia… Também como no caso do Danilo Carvalho e todos os seus trabalhos anteriores, que me encantam. Seu trabalho no cinema, por exemplo, em tantas obras lindíssimas como “Praia do Futuro”, “Tatuagem”, “Supermemórias”… Nem preciso falar mais nada. Depois, entrou em cena a nossa persistência com o trabalho independente do Levi Nunes e Logo em seguida do Danilo, em ambos os estúdios. Em seguida, retornamos em um ritmo mais pulsante com a direção do Fábio Crazy junto com o Levi. Passamos para um estúdio maior para rever questões minimalistas e processos de finalização. Nesse momento já havíamos gravado com muita gente. Até me perco ao tentar lembrar de uma vez.

Daniel Filipe ajuda a construir a cena musical parnaibana (Foto: Germana Ribeiro)

Entrecultura: E quanto as parcerias nas canções?

D.F: No sentido de parcerias nas composições, três músicas eu escolhi de outros compositores, parceiros de projetos. Duas que são de Lucas Linhares, Tadeu e Levi Nunes. Outra que é do Hugo dos Santos. Todas foram escolhidas pensando esse diálogo com a proposta do álbum. Uma coisa engraçada a respeito da única composição que realmente é uma parceria minha e de outro artista nesse álbum, a música “A Deusa”. Eu brinco que tive que pedir autorização para duas entidades ao gravar. Uma é Iemanjá, outra é o Hugo dos Santos. Quando eu conheci o Hugo, e, respectivamente, as músicas dele, Levi nos levou até à praia. Tem aquela coisa, quando se chega ao litoral, a saudade do mar bate. Imagine o Hugo, filho de Iemanjá. Admiro demais a espiritualidade dele. Toda vez que vai ao mar, deixa uma música para Iemanjá. Daquela vez nós escutamos a música feita para ela, aquela melodia ficou na minha cabeça, com os seus seis primeiros versos por um bom tempo. Depois de mais ou menos um ano e meio nasceu “A Deusa.” As parcerias nos arranjos e a linguagem percussiva das músicas foram realizadas por muitos, desde o início das gravações. Mas as que nos identificamos e foram para o álbum são: Pâmela Cristina na percussão, e, em duas músicas, no pandeiro e na alfaia, a participação mais que especial de Fábio Crazy. Savina Alves no contrabaixo, participação do Paulo Slap e Afonso Souza no mesmo instrumento (no caso do Afonso, também na baixaria do violão), Lucas Linhares na guitarra, Levi no sintetizador e beats, Tahiana Meneses e André Oliveira no piano sintetizador e Danilo Carvalho na Gaita e Lap Steel Guitar. Também o maestro Beetholven Cunha, respeitado por sua obra no Brasil e no mundo,  compositor que Parnaíba abraçou com muito carinho. Contei com a participação da voz belíssima da Brisa, Sabrina Cardoso, parceira de Ultrópico, que cantou comigo “Viradeira”. É uma composição que, na verdade, seria destinada ao álbum da Ultrópico e, no meio do “pensar, repensar, refazer”… Na finalização, decidimos colocar no meu. Vem muita coisa por aí, gente… Falo daqui, do litoral do Piauí.

Entrecultura: Falando de musicalidade, você coloca um fenômeno citado por Torquato neto, que é uma “folclorização” do folclore. Como foi esse processo de trabalhar no seu disco a música popular enquanto identidade e não enquanto elemento?

D.F: Pois é, eu me refiro especificamente à música “Cajuí”, que foi resultado dessa influência das músicas populares tradicionais do “Bumba-meu-boi”, da minha região, durante a construção de parte dos arranjos, nuanças da voz. A música traz na letra relatos da infância, metáforas que acariciam as memórias.  Mas isso tudo como lembrança, como se estivesse dizendo: “isso é daqui”, ou “sou eu”, resolvi cantar deste canto. As nuanças na melodia trazidas, a partir do tradicional, em algumas partes da “Cajuí”, são tomadas como memória minhas. Podem ser entendidas também, no processo de construção, como um estudo. Ou também (por que não?) como um elemento, que faz parte dessa música. A questão não é negar a grande influência, mas quando fiz referência e quis trazer essa fala do Torquato para esse diálogo, foi para trazer o cerne dessa “folclorização” – palavra que parece quase o nome de uma manifestação artística dançada, porque nos lembra de uma ação direcionada e do nosso folclore. Vou escolher uma metáfora para isso. Parecem estar “dançando em volta” das construções identitárias escolhidas para serem os “semióforos” de uma nação, por exemplo. E a partir disso é interessante como ainda temos um enorme apego ao termo “regional” e como as nossas produções vêm sendo voltadas a um grande ufanismo. Podemos fugir dessa relação alienada às construções, trazendo talvez essa discussão à tona. Falando sobre o nosso bairrismo. Tendo uma relação diferente com música tradicional também. Estamos tentando, e realmente me parece algo bastante complexo. Sou apaixonado por esses fenômenos da cultura popular e, tratando-se de música, me emociono muitas vezes com tantas músicas fantásticas do nosso estado e com artistas que entendem essa relação com a tradição e o caráter “não-estático” da cultura. Também dos grupos que tocam, cantam e pesquisam música popular como o “Valor de π” e os queridos do “Caju Pinga Fogo.” Toda a minha admiração.

Entrecultura: Você é uma das figuras que muito tem contribuído na produção artística em Parnaíba, junto do Ultrópico Solar. Como tem sido esse movimento?

D.F: Queria dizer “fácil”, estou brincando, mas é verdade. É interessante isso porque existe hoje praticamente uma espécie de duas “Ultrópico Solar” (movimentação e a banda). Falo isso porque iniciamos e continuamos, de certa maneira, com o intuito de agregar linguagens de arte, sempre em conjunto aos nossos trabalhos existe uma coisa de arte visual e audiovisual, por termos essa relação íntima com artistas dessas linguagens. No início, começamos a trocar ideias, a partir da convivência nos espaços geralmente negligenciados – negligenciados como âmbito de circulação artística, por exemplo o “Porto das Barcas” – e poucos lugares que geralmente frequentávamos para tocar, estudar, e tivemos conhecimento das músicas e trabalhos uns dos outros. Sem “centro cultural” específico, o Porto das Barcas estava sendo ocupado muitas vezes pelo projeto sem dono “Domingo no Porto”. Foi uma forma de juntar pessoas que estão (ou estavam) produzindo em Paranaíba. Exemplos disso são: o baiano Artur Rios (artista plástico), Gelson Catatau (fotógrafo), a paraense Ster Farache (designer e artista audiovisual), o Danilo Carvalho (cineasta, diretor, fotografo, músico), Valquíria Sabino (artista plástica, desenhista), e tantos outros, que também se inserem em outros projetos, como a Germana Santana (autora da fotografia do álbum “Tempo Inflamado”). Tem gente produzindo também em outras cidades, que saíram para estudar dança, performance, como a Shawene Gonçalves (artista plástica e performer), a Ellen Soeiro (audiovisual e performer). Quando chamou mais atenção essa nossa parte de música, pelas composições que lançávamos pelo Youtube em conjunto com as artes visuais, resolvemos, muito naturalmente, assumir (também) o posto de banda, já que nos tinham como tal. Os trabalhos vêm sendo com persistência nossa em fazer música independente, mas também vêm de um processo muito natural de fazer música e buscar parcerias entre nós e dentre nossos laços em outros estados ou na própria capital, por exemplo. O Levi vem sendo uma personalidade agregadora nesse sentido. Agora com a parceria entre ele e o Fábio Crazy, temos a “Solar 6 Voltz”. É de se esperar outras potentes produções.

Tempo Inflamado é o primeiro disco de Daniel Filipe (Foto: Germana Ribeiro)

Entrecultura: Podemos dizer que você faz parte de uma outra consciência artística, que não almeja sair de sua cidade para uma capital, a fim de ter seu trabalho reconhecido? Ficar no em Parnaíba e impulsionar esse lugar foi um processo natural para você?

D.F: Acho fantástica essa ideia, quem almeja isso ou quem já consegue executar. Mas eu não me vejo totalmente assim. Quero poder sair, quero poder voltar, quero estar, quero poder conviver com as cenas de uma capital, também conhecer os interiores. Quero impulsionar a cena piauiense, quero poder impulsionar a cena de onde eu estiver. Almejamos ter outras parcerias, seja na música ou em projetos da linguagem, lembrando que nem tudo é mais isolado como antes. Hoje podemos nos comunicar facilmente de longe, podemos planejar e impulsionar de longe também. Já somos do mundo! Porém, claro que gostaríamos que o mesmo (mundo) fosse um pouco mais fácil para muitos artistas que admiramos e para nós mesmos. Mas… Mão na massa! Em relação a “ficar no seu lugar”, é natural e relativo, para isso tivemos várias vezes que sair do nosso lugar comum, mas, foi sim (e é), muito natural, como artista, ter ficado em minha cidade e ter desenvolvido laços tão ricos, ter trazido para perto e incentivado novas ideias e vozes. Assim como também ter me deixado aproximar de muitos, ter dialogado com os meus contemporâneos e também com “estabelecidos”, e fundar e participar de projetos tão maravilhosos, assim como a Ultrópico Solar. Quero sempre lembrar a sorte que tive de nascer em um lugar com um capital artístico tão grande, em poder trabalhar e conviver com pessoas que admiro muito, outras que aprendi a admirar, e outras que desde cedo foram referência para mim. Agradeço a todos que toparam participar e pensar o “Tempo Inflamado”. Agradeço também a cada um que segue nessa empreitada de fazer música no Piauí. Um “salve” à toda “experiente guarda” e um abraço em toda a “guardia nova”.

Entrecultura: Deixe uma mensagem ao público do Entrecultura.

D.F: Agradeço primeiramente a todos os que me acompanham e o carinho que venho recebendo das pessoas que já escutaram o álbum. A todas as artistas e os artistas que trabalharam comigo e os que vêm me felicitando pelo novo som e pelo exercício das suas respectivas sensibilidades. Agradeço enormemente o interesse do Entrecultura pelas nossas produções, indo além das fronteiras com a capital – interesse com tamanha profundidade. E de poder falar sobre Cultura em nosso estado. Muito além das barreiras institucionais. Em poder falar sobre o caráter das artes. Cultura é uma imensidão. Deixo o meu carinho a todos os que se interessam por música e por esse diálogo. Aos que movimentam nossa cultura e aos que se inquietam ao nos ouvir. Quero também, como sempre, mandar um abraço a todos os músicos que tocaram e que tocam na escola das noites piauienses. A todos os maestros, estudantes de música, músicos autodidatas e letristas de nosso estado. Escutem nossas músicas nas plataformas. Escutem também a nova música brasileira. Incentivem através das redes e da presença em projetos independentes. Tem muita gente que irá se espantar com tantas descobertas, com as novas propostas e produções.

Ouça Tempo Inflamado:

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