O inventor da maldade: Marcelo Evelin se prepara para estreia mundial do seu novo espetáculo

Por Thais Guimarães - 02/04/2019 18h00
Foto: Renaud Monfourny

“Essa história de invenção da maldade veio da minha avó, que já morreu há mais de 10 anos e que era  uma pessoa muito importante para minha vida e para o meu trabalho. Quando eu era criança e começava a brincar de fazer teatro, minha avó dizia ‘ih, já começou a invenção da maldade, lá vem o inventor da maldade’. A invenção da maldade veio daí, eu estou muito fascinado com essas duas palavras, invenção e maldade. Invenção, porque  invenção não é descobrimento e eu venho me afastando da ideia de descobrir coisas. Invenção é uma coisa que você coloca no mundo e que não existia antes e a minha intenção é, a cada espetáculo, a cada projeto, colocar uma coisa no mundo que não existia antes. E a maldade estou associando a essa criação, a esse lugar da arte, que subverte, que é o pé na porta, o lugar que cria um certo desconforto, porque acho que arte não é sobre trazer conforto, não é sobre apaziguar, principalmente pensando na Sociedade Brasileira hoje em dia, eu não vou fazer arte para esse povo digerir o jantar, eu faço arte a partir de um outro lugar e fico achando que não existe mais nada no mundo além de maldade, acho que a maldade está começando a ficar banalizada, ela está começando a fazer parte cada vez mais dos meios, das situações e a gente nem se dá conta. É claro que eu não quero abordar maldade com moralismo, com julgamento, não quero fazer apologia ou ser contra, não é uma coisa maniqueísta, nem faço arte com solução para o bem estar das pessoas, isso aí é livro de auto-ajuda, procurem nas livrarias, que está cheio disso aí, não faço arte para isso”.

Marcelo Evelin sintetiza dessa forma A invenção da maldade, seu novo espetáculo, que faz sua estreia mundial em Teresina nesta quinta-feira (04) no CAMPO Arte Contemporânea. Coreógrafo e intérprete, Evelin é, antes de tudo, um pesquisador, que percorre o mundo mas, no Brasil, se estabelece (e cria) em Teresina. Com sua companhia de dança, a Demolition Incorporada, assina espetáculos como Matadouro (2010), De Repente Fica Tudo Preto de Gente (2012), Batucada (2014) e Dança Doente (2017), que rodaram por inúmeros países.

Trabalhando na Europa há mais de 30 anos, foi no subúrbio que o artista decidiu produzir quando retornou ao Piauí. Entre 2006 e 2013, criou e geriu em Teresina o Núcleo do Dirceu, lugar responsável pela formação de inúmeros artistas de dança no estado. “Sempre foi muito consciente para mim a escolha dos não centros, dos deslocamentos. Fiz meu trabalho até 2006 no centro do mundo, na Europa, e vim trabalhar consciente no subúrbio de Teresina. Tento estar fora dessas ideias de centro, a mim me interessa justamente esses corpos que não são hegemônicos, que não é o corpo treinado, bonito, branco. Me interessa pessoas que estão a margem, que não se encaixam”, afirma ao Entrecultura.

Marcelo Evelin no espetáculo “Dança Doente” (Foto: Murício Pokémon)

Em 2016, ao lado da produtora cultural Regina Veloso abriu outro espaço para criação: o CAMPO, que vai ser o palco da grande estreia de mais uma obra sua.  “CAMPO é uma metáfora para uma roça: tem o campo, você chega com sua enxada, seu grão e planta. Você cuida, e aquilo que der a gente divide”, assim Marcelo define o espaço que ajuda a gerir. “Estamos na resistência de manter esse espaço. Enquanto não se transforma em um centro coreográfico, o CAMPO funciona como um centro de residências. Ele nunca foi pensado como um espaço de apresentação, de workshops, e nunca foi pensado como um espaço para festas. Tem gente que entra aqui e diz ‘ah, esse espaço seria incrível para baladas, vocês iriam ganhar muito dinheiro’, e eu digo ‘você acha que eu sou idiota? que eu não sei que poderia fazer disso aqui um lugar de balada? só que não me interessa, estou aqui fazendo arte’. Temos quartos para alojar artistas, para passarem temporadas aqui, estou interessado nessa arte da convivialidade, feita no tratar com outras pessoas, e não uma arte técnica, que está em um lugar acima de todos os viventes desse planeta. O CAMPO está aberto para toda e qualquer pessoa e também para não artistas, é um lugar para pessoas que tenham ideias e queiram se misturar”, resume.

O coreógrafo tem em Teresina um dos melhores lugares para se viver e criar. “Acho Teresina uma cidade super agradável para se viver no Brasil, conheço muitas cidades no Brasil, não moraria em São Paulo por nada, acho uma cidade chatíssima, cara, difícil, perigosa. Fico mais dividido entre Teresina e Europa do que com o resto do Brasil. As pessoas estão começando a voltar o olhar para cá, como um lugar possível de se vir e trabalhar. E acho que tem a ver com essa nossa maneira de ser no Piauí, hospitaleiro, gentil, simples, sem grandes paranoias, uma maneira que eu acho bem brejeira. E o Piauí também tem a coisa do nível de precariedade, que é muito forte, e quando a gente chega nesse nível de precariedade, se souber virar a chave a gente tira muita coisa, é algo que pode trazer muito movimento”, argumenta.

Sobre suas obras, Marcelo Evelin, fala sobre uma certa necessidade que as pessoas têm de buscar uma definição sólida para o que se vê no palco. “Uma coisa bem forte no meu trabalho é não seguir uma lógica narrativa, realista, que chegue perto das novelas de televisão, que eu acho uma coisa horrenda, uma das maiores mediocridades desse país. São novelas bem feitas tecnicamente, mas acho que o conteúdo é de uma pobreza atroz, e claro que é proposital, é feito com o sentido exato de manipular. Então, eu fico buscando sentido, mas vou tentando abrir esses sentidos, tentando esgaçar e dar possibilidades para outras coisas. Não acho que a arte tem que ser explicativa, não acredito em arte didática, que ensina, que tira crianças das drogas, que leva as pessoas para o céu, não acredito nisso, acho que arte é um lugar de profusão de ideias, de diversidade de propósitos. É hora de mudar as lógicas, de buscar outras organizações de sentido”, finaliza.

“A invenção da maldade” (Foto: Maurício Pokémon)

A invenção da maldade estreia nesta quinta-feira (04) e ficará até o dia 07, todas as noites às 20h, no CAMPO Arte Contemporânea, que fica localizado na rua Padre José Rego, 2660, bairro São João. O ingresso custa R$ 10,00 e a classificação indicativa é de 18 anos.

Sobre o espetáculo

A Invenção da Maldade, que conta com o apoio do Rumos Itaú Cultural 2017-2018, traz discussões sobre os processos de desumanização e desafios de coexistência, a partir da ideia de civilização e modernidade. A obra foi criada em colaboração com a polonesa Maja Grzeczka, o baiano Márcio Nonato, o italiano Matteo Bifulco, a mineira Rosângela Sulidade, o belga Elliot Dehaspe, os paulistas Bruno Moreno e Carolina Mendonça, o japonês Sho Takiguchi e o dinamarquês Jonas Schnor.

 

 

Por Thais Guimarães

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