O ano musical de 1972 no Brasil, por Pedro Ben

Por Redação Entrecultura - 09/05/2019 18h35

1972 foi o ano de discos fundamentais para a música brasileira. Alguns não receberam a atenção devida, o que é comum aos ouvidos desatentos e pedantes, porém, são trabalhos que influenciaram praticamente tudo o que se seguiu em termos de música brasileira.

Em 72,  nos porões do “Milagre Econômico” a Ditadura Militar censurava, torturava e matava, eram anos de chumbo. Em contraste a isso, nasceu o ensolarado Acabou Chorare, dos Novos Baianos, pois “quem não gosta de samba bom sujeito não é”; das misteriosas montanhas mineiras veio a poesia sublime de Milton Nascimento & Lô Borges em Clube da Esquina; no mesmo ano o enigmático Disco do Tênis, de Lô; no Nordeste psicodélico temos a estreia quadrafônica de Alceu Valença & Geraldo Azevedo; Jards Macalé estreia com seu mal secreto, farrapo humano, farinha do desprezo e let’s play that Torquatiano. Caetano Veloso, no exílio, recruta a galera de Macalé e Transa, no mesmo ano o Araçá Azul alça seu vôo experimental; também do exílio, Gilberto Gil se lança no Expresso 2222 e Back In Bahia; Se o caso é chorar, Tom Zé sempre foi o gênio ímpar dos tropicalistas; as loucas baladas dos Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets; Paulinho da Viola dedilha as dores em A Dança da Solidão; Jorge Ben congestiona as rádios com os megahits “Fio Maravilha” e “Taj Mahal” do disco Ben; o extraordinário homônimo do  maestro  Arthur Verocai, que injustamente (como tantos outros) caiu no limbo do esquecimento, onde sempre há tempo para redescobertas; finalizando esta pequena lista, que não se conclui nestas citações, temos o disco de estreia da Diana, com a linha de baixo mais marcante do brega brasileiro em Porque Brigamos.

Menção especial para o versátil e libertário Índia – Gal Costa (1973), censurado por conta da capa e  vendido à época embrulhado em um plástico azul; e o funkeado hitmaker Cuban Soul – 18 Kilates de Cassiano(1976), que não são de 72, mas carregam todo o espírito da época setentista.

A década de 70 tem uma atmosfera única, talvez os melhores registros em aspectos de sonoridade, estética e técnicas de gravação. A tecnologia analógica permitia apresentar o artista cru com toda a sua essência. Desafio: procure ouvir qualquer disco dessa década, seja nacional ou estrangeiro, e só terá boas companhias aos ouvidos. Mas não se esqueçam: as boas companhias não eram bem-vindas, eram r vezes desprezadas, e ainda o são. mas o som que ecoa nunca se cala. O futuro sempre cobra a conta.

 

 

Pedro Ben é músico, compositor e produtor

Comentários

Bráulio Luís

Muito bom!

13 maio, 2019 Responder

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