As muitas formas de dançar de Datan Izaká

Por Thais Guimarães - 30/06/2019 00h46

“Gosto de ser chamado, antes de qualquer coisa, de artista da dança. Aí vem as outras coisas: sou bailarino, coreógrafo, performer e gestor público. Tenho dançado um pouco menos, mais fora daqui, mas não parei de dançar, porque quando entendo que estou aqui, em um lugar de gestão, promovendo dança, é um outro jeito de dançar. Estou dançando quando estou dirigindo essa escola, quando estou te dando essa entrevista, quando leio um livro de dança… tem gente que dança com o corpo, com o pensamento, com a fala… essa variação é infinita e incrível, e é assim que eu estou dançando”.

Datan Izaká (Foto: Poliana Oliveira)

Esse é Datan Izaká. Ele recebeu o Entrecultura na tarde de uma quarta-feira na Escola Estadual de Dança Lenir Argento (da qual é diretor), que fica na Central de Artesanato Mestre Dezinho, bem no Centro de Teresina, em um local considerado um complexo cultural, que abrange a Praça Pedro II, Theatro 4 de Setembro e Club dos Diários. No hall da escola, somos recepcionadas primeiramente por um mural com as cores vivas de Nonato Oliveira. Em seguida, chama atenção a galeria de fotos de todos(as) que já dirigiram a instituição. E lá está estampada a imagem de um jovem diretor, nosso entrevistado, que prefere nos receber em uma das cinco amplas salas de aula de dança.

A princípio, a ideia era começar falando sobre a Escola, contudo, a conversa foi se desenvolvendo e Datan foi falando tudo o que era necessário ser dito. Com sua voz mansa, porém firme, — ele fala com uma convicção que poucas pessoas possuem hoje em dia — Datan Izaká defende seu ponto de vista e seu lugar no mundo: a dança.

O artista teve o primeiro contato com a dança de modo mais intenso aos dez anos de idade, na extinta Fundação Centro de Cultura e Educação Permanente Lineu Araújo (CCEPLAR), uma iniciativa da professora Cecília Mendes, que atendia crianças no entorno da zona Leste de Teresina estudantes de escola pública. “Foi um projeto incrível que durou muitos anos. Tínhamos aula de canto, dança, teatro, literatura, enfim, tudo nós tínhamos. De lá, a professora Cecília Mendes encaminhou muitas pessoas, ela é uma pessoa a quem sou muito grato. Ela, identificando que eu queria muito dançar, quando assumiu a Fundação Cultural Monsenhor Chaves e criou o Balé Folclórico de Teresina pediu que a Luzia Amélia [idealizadora do projeto] me recebesse. Fiquei doze anos no balé de Teresina, criei meu grupo de dança, passei por outras academias, até que vim para cá [Escola Estadual de Dança]”, lembra.

Datan Izaká dirige a maior instituição de ensino de dança do estado (Foto: Acervo pessoal)

Em 2011, aos 27 anos anos, assumiu pela primeira vez a direção da escola. Em 2014, deixou o cargo, retornando em 2015. “[Em 2014] houve uma mudança de governo, trocaram a gestão [da Secretaria de Cultura] e eu preferi sair, porque entendo que quando você entra com uma equipe, é legal você sair com a equipe. Saí também por não me identificar com a gestão que estava entrando, mas saí apenas da direção, fiquei como coordenador artístico, sem remuneração, é importante dizer isso. Eu fiquei porque gostava muito, foi na direção do Júlio César, que me ajudou muito quando assumi a direção, e eu, como forma de retribuir, fiquei sem nenhum problema, pois tenho um trabalho que é com dança, e não com o cargo. Em 2015 eu saí realmente, porque houve outra mudança de governo, drástica, e eu não concordava com as coisas que estavam acontecendo. Saí em fevereiro e em julho assumi novamente a direção. Atualmente dou aula e tenho um projeto de formação Redemoinho de Dança, que permeia a formação de artistas e professores”, explica Izaká.

Seis anos atrás, Datan começou a sonhar, ao lado da amiga e companheira de profissão Janaína Lobo, com a realização um festival de dança diferente em Teresina. O também artista Jacob Alves se somou a dupla, e nascia ali um embrião do JUNTA Festival, que veio a se concretizar em 2015. “Havia uma necessidade de se criar um festival que não fosse competitivo, com outro tipo de atuação na cidade, que não fosse apenas para promover programação nem competição. Nas minhas conversas com a Jana, percebi que ela também tinha esse interesse, e o Jacob Alves também, ele indo mais para as artes visuais e o teatro. Começamos a pensar a ideia desse festival em 2013, passamos o ano de 2014 tentando realizar e todo mundo fechou as portas, ninguém acreditou na ideia. Até que em 2015 fomos aprovados no edital da Caixa Econômica Federal e conseguimos realizar a primeira edição do JUNTA, e constatamos que nossa impressão de que a cidade desejava outro movimento de dança enquanto festival era real. Hoje já vamos para a quinta edição, em que a pessoas já ficam a espera, porque é um festival que não é só de dança, ele permeia a arte em um pensamento político o tempo todo, no sentido de como pensar a cidade”, destaca.

Jacob Alves, Datan Izaká e Janaína Lobo (Foto: Caio Bruno)

O coreógrafo, como já mencionamos, é bem firme ao defender o que acredita, principalmente quando se trata de questões que dizem respeito ao ensino da dança. Na Escola Lenir Argento, o diretor vem fazendo mudanças drásticas, e a consequência, segundo ele, tem refletido no aumento da autoestima, das e dos estudantes, sobretudo as meninas, que em sua maioria são negras. “As meninas passavam por um processo que era muito comum aqui dentro, o de embranquecimento, digo isso sem medo. Então, diante de todas essas questões, sem hesitar comecei a promover mudanças drásticas na escola. Fui e ainda sou muito criticado por isso, mas não dou um passo atrás enquanto estiver aqui, porque é político o que eu estou fazendo, sabe?! As meninas hoje andam de cabelo solto aqui, não alisam mais os cabelos, elas estão entendendo que a cor delas é bonita, que elas não precisam querer ser o outro. Tenho visto muitas delas aqui na escola dizendo, por exemplo: nessa escola tem muitos quadros de mulheres brancas, mas nós é quem somos maioria aqui dentro”, afirma.

Sob a direção de Datan Izaká, a Escola Estadual de Dança voltou a dar destaque a outras modalidades de dança além do balé (Foto: Daline Ribeiro)

Como uma pessoa que não consegue parar de dançar, em 2017 Datan Izaká aceitou o convite para assinar a direção artística do ato da ópera da Serra da Capivara. Os artistas que dançam no espetáculo são da Escola Estadual de Dança. Sobre o evento, ele elogia a proposta, mas faz sinceras avaliações. “Acho que é uma proposição incrível, um projeto realizado na imensidão do sertão… desde que fui lá pela primeira vez não consegui mais ser o mesmo. É um evento muito grande, que vai crescer mais, e acredito que ainda vai passar por muitas alterações, no sentido de entender a comunidade, de entender para quem realmente está sendo feito aquele projeto, acho que precisamos estar atentos a essas questões. Ano passado fiz um manifesto, porque tem-se essa ideia de que é lindo falar dos indígenas, mas não está tudo bem, os indígenas estão sendo mortos e perdendo terras, então eu não podia falar dessa representatividade indígena trazendo essa beleza que não existe, eles têm sua beleza própria. As pessoas saíram de lá muito mexidas, porque foi bonito. No lugar que eu ocupo, preciso abrir espaço para essas discussões, isso é mais que minha obrigação”, finaliza.

A sala espelhada foi testemunha de toda essa conversa.

Comentários

Kácio Santos

Uau! Que lindo Zá! Obrigado pela sua existência!

09 jul, 2019 Responder

Josy

Pessoa do bem!! Kaká que orgulho de ti!!
Que Deus te guie, te guarde.

05 jul, 2019 Responder

Amanda oliveira

Não poderia esperar menos desse profissional incrivel! Tenho orgulho de ser artista da dança no Piauí, e ter pessoas tão políticas e éticas trabalhando em prol da dança e da arte como Datan Izaka (Carinhosamente chamado de Iza pelos amigos) em nossa cidade! Parabéns entrecultura.Bom trabalho.

30 jun, 2019 Responder

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