As mulheres condenadas a Cem Anos de Solidão

Por Thais Guimarães - 31/10/2019 00h30
Os homens da grande obra de Gabriel García Márquez tiveram histórias e fins parecidos. Por outro lado, cada mulher foi um universo.

 

Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. A incrível e triste história da estirpe condenada a cem anos de solidão, que não teve uma segunda chance sobre a terra. Desbravando a saga da família Buendía, que enfrentou tantas desventuras, como a enfermidade da insônia e a febre bananeira na velha aldeia Macondo, que surgiu em uma época em que o mundo era recente, foi valioso aprender que o passado é uma mentira, que a memória não tem caminhos de regresso, que toda primavera antiga é irrecuperável, e que o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera.

Uma das mulheres da estirpe, ilustrada pelo artista argentino Carybé

Contudo, a preciosidade da obra sem dúvidas está nos personagens, e eu queria aqui saudar as mulheres da estirpe. Os homens, Aurelianos e José Arcádios, se repetiram em si mesmos: enquanto um Aureliano sempre era retraído, mas de mentalidade lúcida, um José Arcádio era impulsivo e empreendedor, mas sempre marcado por um destino trágico. Dou destaque aqui a figura de José Arcádio Buendía, o início de todos, ele, que uma vez se recusou a jogar uma partida de damas porque jamais conseguiu entender o sentido de contenda entre dois adversários que estavam de acordo nos princípios. Também o Coronel Aureliano Buendía, que promoveu trinta e duas rebeliões armadas e perdeu todas. E jamais se deixará de lembrar de Melquíades, o cigano cuja presença quem lê a obra sempre vai sentir. Fora isso, os homens tiveram histórias parecidas. Mas cada mulher foi um universo.

Úrsula Iguarán, a matriarca que acompanhou todas as gerações da família. Ativa, miúda, severa, de nervos inquebrantáveis e que em nenhum momento de sua vida alguém ouviu cantar.

Amaranta, cujo desamor lhe marcou o coração e pele para sempre. Rebeca, a órfã que, de amores, morreu chupando o dedo, como fazia quando chegou na casa dos Buendía. Remédios Moscote, menina, feita mulher quando ainda fazia xixi na cama. Pilar Ternera, que, na espera da pessoa amada, perdeu a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ternura, mas conservou, por mais de um século de vida, a loucura do coração. Santa Sofía de la Piedad, que consagrou uma vida inteira de solidão e silêncio a criar crianças que mal se lembravam que eram seus filhos e netos. Remédios, a Bela, que ascendeu com sua beleza considerada sobrenatural, não sem antes levar a morte homens que caíram na própria armadilha de tentar convencer as pessoas da impossibilidade de controlar seus impulsos. Fernanda del Carpio, a rainha intrusa que chegou na aldeia, constituiu a família ideal e morreu sozinha por opção, somente humanizando-se nessa solidão. Petra Cotes, a mulher-amante-amada fiel, que, com uma nobreza (e inocência) sem precedentes, morreu de trabalhar para sustentar a família tradicional do amante. Meme, que teve sua tragédia anunciada por borboletas amarelas. E Amaranta Úrsula, última mulher da estirpe, que pôs no mundo o último Buendía.

Essas mulheres! De vez em quando me pego pensando nelas, concebendo suas imagens no meu imaginário, e nesse exercício olho no espelho e vejo um pouco de cada uma em mim. As vejo em todas nós, mulheres, que resistimos e insistimos em ter segundas, terceiras, quartas, infinitas chances sobre a terra.

 

 

 

Por Thais Guimarães, jornalista do Entrecultura
Comentários

Luiz Fernando

Lindo texto! Realmente, os personagens são muito fortes. Quando lembro de algum deles, sempre acho que são pessoas reais. Mais reais do que muitas que eu conheci de verdade.

05 out, 2019 Responder

Comentar