Como repensar o Estado através da Cultura, Entrecultura entrevista Adriano Abreu

Por Redação Entrecultura - 09/05/2017 12h41

Para entender melhor essa pergunta, o entrecultura foi bater um agradável papo com o  teatrólogo Adriano Abreu, diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes.

Entre um questionamento e outro, o dramaturgo , afirma que: “diante desse cenário multicultural, é possível afirmar, que o Estado do Piauí não conseguiu ainda dimensionar um projeto de sociedade que emancipe seus cidadãos e cidadãs de forma libertária”.

O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes é uma organização dedicada a promoção, divulgação, pesquisa, ensino e produção das artes cênicas, com foco principal na formação integral do atuante e suas interfaces com a arte do espetáculo.

Adriano Abreu iniciou sua carreira teatral em 1992, como ator na companhia dirigida pelo ator e encenador paulista Laurent Matallia.

Atuou, dirigiu, escreveu e iluminou diversos espetáculos de sucesso. Em 2001, cria seu próprio grupo teatral. Multifacetado, Adriano Abreu ainda é poeta, professor e desempenha na cidade de Teresina um trabalho de pesquisa com uma estética de conceitos cênicos que explora o fazer teatral  a rigor de marcas do teatro brasileiro.

 

Adriano Abreu

“Para repensarmos o Piauí através da cultura, é fundamental, começarmos a enxergar as diferenças entre os agentes culturais.Um dos grandes erros da gestão Pública de Cultura no Piauí é, geralmente, colocar realizadores diametralmente diferentes no mesmo balaio.”

Entrecultura: Como você analisa a cultura do Piauí atualmente?

Adriano Abreu: Para criarmos uma metáfora bem instigante, vejo a cultura do Piauí como uma imensa colcha de retalhos que precisa ser costurada.

Temos manifestações em todas as áreas das artes e, é sobre isso que gostaria de fazer um recorte no termo “cultura”.

Sendo um conceito bem mais amplo do que as manifestações artísticas, a cultura no Piauí  tem diversas  representações. Somos contemporâneos e em termos de produção artística, possuímos manifestações nos diversos segmentos das artes, impregnadas de um diletantismo enorme.

Agora e diante desse cenário multicultural, é possível afirmar, que o Estado do Piauí não conseguiu ainda dimensionar um projeto de sociedade que emancipe seus cidadãos e cidadãs de forma libertária, nem mesmo entre os artistas, proporcionando a todos o pleno exercício de seus direitos, o reconhecimento da importância de cumprirem seus deveres e, principalmente, através dessa construção cultural, forjar homens e mulheres criativos e úteis na construção de um venturoso futuro global.

 

EC: Nosso Estado é rico em lendas, musicalidade, culinária, costumes e temos até um  dialeto próprio, o “piauiês”. Todos esses atributos estão sendo usados corretamente?

AA: Não sei se o questionamento “correto” seja estarmos usando de forma correta ou equivocada a nossa riqueza cultural.

O imprescindível talvez seja o reconhecimento desses atributos como potencialmente importantes e impulsionadores, em um projeto de desenvolvimento que qualifique nosso povo a inserção (de fato) na nação brasileira e mundial, como propositores e transformadores, não meramente como reprodutores e dependentes de visões e identidades externas. Vou citar um exemplo prático disso:“qualquer produtor não terá muita dificuldade em conseguir apoio para espetáculos de cultura de massa que atraem multidões de espectadores.”

Até aí tudo bem!

O problema é que nesses eventos não se consegue, de nenhuma forma,  se discutir de forma consequente,  as marcas identitárias do nosso povo e as características que nos diferenciam e o nos unem do resto da sociedade brasileira. Ao invés disso, milhões são investidos, atraindo milhares de pessoas, porque a grande mídia  oferece a  quem vai uma falsa perspectiva de fazer parte de algo realmente grandioso.

Será que este tipo de indústria cultural tem interesse em criar uma sociedade crítica, uma sociedade de seres humanos que consigam construir sozinhos seus próprios destinos?

Em outras palavras, continuamos, aqui no Piauí, de maneira geral, convivendo ainda com essa visão bastante alienante de fruição de bens culturais.

 

EC: Bumba-meu-boi, reisado e cavalo piancó são algumas manifestações culturais do nosso Estado. Essas apresentações artísticas  são mesmo valorizadas pelo piauiense?

AA:  Apesar de apreciar essas manifestações da cultura popular não tenho conhecimento e a profundidade necessária para discorrer sobre elas.

Identifico que com os processos de massificação generalizados através das mais diversas mídias e com a  globalização acachapante, muita coisa nessas categorias da arte popular tem desaparecido, algumas, inclusive, viraram material de pesquisa antropológica somente e perderam sua força como catalisadoras e agregadoras sociais. Algumas iniciativas de outras artes, ditas mais eruditas, tentam, vez por outra, apropriarem-se dessas matrizes culturais, realizando releituras e apresentações para uma parcela da sociedade piauiense.

Infelizmente, esses esforços ainda não obtiveram muitas repercussões. Tão pouco e até onde eu sei, nunca foram mostrados para os proprietários das matrizes que ainda restam, o que seria importantíssimo, para que eles pudessem, através dessa relação dialógica, se contraporem, aprovarem ou ignorarem tais obras.

Apesar de terem obtido uma outra repercussão, nos meios autodenominados mais cultos, não proliferaram muito e, infelizmente, jamais foram desenvolvidos projetos de pesquisa estética a longo prazo, possibilitando apuramento e sustentação técnica-estética e conceitual necessárias a essas iniciativas.

EC: Nosso artesanato também é algo bem representativo. Em Pedro II, por exemplo, encontramos o mais expressivo centro de produção de tecelagem manual do Estado. Ali existe de forma constante, a confecção de redes, mantas, tapetes, mochilas, e bolsas. Porque a referência do local gira em torno da opala?

AA: Provavelmente porque a exploração dessa riqueza mineral dá mais lucro, em detrimento da manufatura artesanal têxtil.  Todavia, gostaria de chamar a atenção para algo extremamente nocivo à questão desses produtos culturais feitos por algumas comunidades piauienses e que tem relação direta com a questão de se repensar o Piauí através da cultura. Ainda temos a crença estúpida de que modificando as características dos nossos produtos, tornando-os iguais ao que encontramos em outras partes do mundo, eles seriam melhores e venderiam mais.

Fico entristecido quando vou ao polo cerâmico do Poty Velho, em Teresina, e vejo boa parte das peças produzidas por aquelas pessoas como cópias malfeitas da cerâmica marajoara.  Alguém “orientou” os ceramistas do Poty Velho que aquelas cópias horrorosas eram melhores e mais vendáveis do que nossa cerâmica tradicional que é lindíssima.

Dessa forma começamos a indicar algumas pistas no sentido do questionamento que gerou essa entrevista: “É possível repensar o Estado do Piauí através da cultura?”.

 

EC: Na Ilha Grande de Santa Isabel, mulheres e jovens estão à frente de trabalhos de cestaria e traçados, já que a área é rica em palha de carnaúba. Mas é pouco divulgado para turistas e até mesmo piauienses. De que maneira poderia ser divulgado esse trabalho?

AA: A melhor divulgação para qualquer trabalho,seja artístico ou não, é o esmero em sua realização e a qualidade no resultado final.

No entanto, considero que os poderes constituídos e a iniciativa privada podem  contribuir imensamente com isso. Sou absolutamente contrário a influência ou intervenção do Estado na realização da obra de arte, no entanto, sou completamente a favor Dele, no fomento à produção artística cultural.

No início dessa entrevista falei que a cultura do Piauí era uma imensa colcha de retalhos descosturada, o Estado (quando digo isso falo das esferas Federal, Estadual e Municipal), pode servir muito bem como “uma linha” que possa costurar esse mosaico de tecidos culturais. Só assim se fortalece uma visão de povo, pois a cultura é o que dá autoestima a uma sociedade.

Muito do caos e desagregação que existe hoje no nosso país, na minha humilde opinião, faz parte desse processo de fragilização da Cultura Nacional.

No Piauí não é muito diferente do resto da nação, com um atenuante, séculos de usurpação, inclusive estética, do nosso povo, isso é outra questão relevante.

 

EC: Temos algumas produções cinematográficas genuinamente piauiense. Cícero Filho, Franklin Pires, Alexandre Mello, são alguns nomes do cinema local. Como você avalia o audiovisual no Piauí?

AA: Vejo como quase tudo nesse lugar do Brasil. O audiovisual do Piauí sobrevive com atraso imenso em relação ao resto do país, no entanto, existem algumas poucas exceções na regra.

Conheço o trabalho dos três citados, gostaria de lembrar também o Douglas Machado e o Monteiro Júnior.Sei que existem outras pessoas e grupos iniciando trabalhos, porém, como não conheço, sinto-me obrigado a renunciar a me pronunciar a respeito.

Todavia, acho fundamental frisar que igualmente a cena teatral, onde nem tudo é a mesma coisa, aqui se faz teatro muito elementar (no mal sentido do termo) e trabalhos bem interessantes (no bom sentido).

Considero, partindo da mesma constatação do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, que os realizadores elencados por vocês, mais os que citei, trazem diferenças gritantes entre si. Diferenças que vão desde a relação com o Estado na produção de seus trabalhos, quantidade de recursos financeiros que dispõe, tecnologias que utilizam e, principalmente, visões de arte e de mundo as quais se apegam para realização de sua arte, muitas vezes até opostas.

Para repensarmos o Piauí através da cultura, é fundamental, começarmos a enxergar as diferenças entre os agentes culturais. Um dos grandes erros da gestão Pública de Cultura no Piauí é, geralmente, colocar realizadores diametralmente diferentes no mesmo balaio.

Gostaria de encerrar esse bate papo com o Entrecultura agradecendo a oportunidade e colocando que essa discussão é muito maior, e não deve ser esgotada em única opinião, certamente bastante limitada como a minha.

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