Torquato Imagem da Incompletude

Por REDAÇÃO - 06/04/2021 12h14

O que você ainda não sabe sobre Torquato Neto? Quantos torquatos você conhece?

Muito já se falou e fala sobre Torquato. Sua participação na Tropicália como letrista seminal e sua rica e curta criação literária são até hoje a matéria-prima para quase tudo que se escreve e discute sobre nosso poeta maior. Mas a sua inquietação estética vai muito além disso.

Curioso, experimentador e experimentalista, o gênio criador do artista não conseguiu se satisfazer com a literatura e com a música, linguagens com as quais marcou seu nome no panteão da arte brasileira. Sempre ligado ao novo, sedento de novas formas de expressão, Torquato expende sua percepção e consequente necessidade de expressar isso através do cinema. Num momento de efervescência da sétima arte, que vinha dando ao mundo obras-primas de Fellini, Buñuel, Truffaut e Godard, por exemplo, o artista é atravessado por toda essa criação fantástica. Uma alma criativa como a sua não passaria incólume num momento assim, e a verve cinematográfica aflora. Sua mente era como um catalisador de influências e referências. Tudo isso explode naquela que seja, talvez, a obra que melhor demonstre a sua genialidade: “O Terror da Vermelha”.

O toque do Torquato letrista, jornalista, provocador e poeta agora se materializa na forma de imagens numa obra tão rica quanto complexa, tão brasileira quanto universal, tão bela quanto incompreendida. E é sobre esse momento importantíssimo não só da criação torquatiana, mas também do cinema nacional – faça-se justiça – que o artista visual Guga Carvalho, em parceria com Danilo Carvalho, lançam seus olhares através do filme “Torquato: Imagem da incompletude”. O título, por si só, já merecia um prêmio.

A personalidade artística-difusa-multipolar do gênio não poderia estar melhor associada a outra característica que não essa: incompletude. “Em Teresina falta uma maturação na percepção de todas as vertentes (artísticas) em que Torquato atuou”, pontua Guga. “Acima de poeta e letrista, as pessoas têm que entender que ele era um experimentador. Há uma visão reducionista sobre sua persona artística fechada na literatura, Isso quando não o  reduzem à sua biografia, como o “suicida”, como se isso conferisse algum valor estético”, conclui. Em nossa conversa, regada a café, de forma descontraída, consegui  perceber que a personalidade da pessoa Guga Carvalho diz muito sobre a forma como o filme foi concebido.

Detalhista, sagaz, docemente ácido – “Vamos fazer uma polêmicazinha? ( risos, nossos) Nada a ver chamar um “Teatro Torquato Neto”. Alô, Secult!. Teria que haver um Cine Torquato Neto, para filmes de arte, discussões sobre sua obra. Homenagear uma pessoa não é só dar o nome dela a um luigar”- ele realmente se mostra uma pessoa sensível à obra do cineasta, um fã com conhecimento sem análises sentimentalóiodes. Até por que, convenhamos, isso não tem nada a ver com Torquato.
Guga e Danilo percorreram alguns milhares de quilômetros para ter a participação de pessoas que viveram o momento com Torquato, seja pessoalmente, seja artisticamente, sejam os dois.

Cacá Diegues, Carlos Galvão, Carlos Vergara, Douglas Machado, Ana Bella Geiger, Paula Gaítán, como testemunhas contemporâneas, pintam com novas cores a imagem do artista. Sua “rixa” com o Cinema Novo, sua vontade constante de inovar, quebrando qualquer tipo de amarra. Peitar Glauber Rocha não era para qualquer um.
Todos os depoimentos convergem para um ponto: ninguém consegue definir artisticamente o homem que cruzou os Parangolés de Helio Oiticica com a nouvelle vague ( talvez a referência mais próxima que podemos associar ao Terror da Vermelha).

Mas todos conseguem perceber que a beleza de sua criação era justamente isso. A obra de torquato não entrega nada ao espectador, ela desafia. Sabe-se lá onde ele teria chagado se tivesse tido mais tempo. A fala de Paulo José Cunha é uma das mais interessantes: participante do experimento cinematográfico, explica como o filme acontecia ao mesmo tempo em que era criado na cabeça de Torquato, tipo “vai fazendo aí”. E funcionava.
“A obra de Torquato neto, principalmente o Terror, é cheia de atravessamentos artísticos, de todas as formas de referência que ele pudesse usar”, diz Guga. Enfim, o suprassumo do tropicalismo.

A fotografia de Camila Freitas consegue captar a essência do que está em questão, aquela visão do cineasta Torquato. Combinada com a trilha sonora e desenho de som primorosos de Danilo Carvalho, casam como se as duas linguagens formassem uma das composições do gênio, o que mostra o quanto a equipe estava alinhada e imersa no universo torquatiano.


Montagem, edição, fotografia, depoimentos: nada sobra neste filme. E também nada conclui. Torquato não concluia a si mesmo, não seremos nós que o faremos. Não há dúvidas de que este é o trabalho que melhor explora esse lado do artista.

Que só a incompletude nos defina, então.
Já conhecia esse Torquato? Se não, vai lá no Canal Curta, dia 07/04, ás 22:25h e a reprise no dia 08/04, ás 02h25, 09/04, ás 10h25 e dia 10/04, ás 15h35.

Por Marcos Antonio Santos, escritor, músico, professor e produtor cultural.

@marco_antonio_tt

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