Noite de autógrafos de Letícia Nascimento ou uma noite para a História.

Por REDAÇÃO - 09/08/2021 10h05

POR: Escritor Marco Antonio dos Santos

 

Profª Jaqueline Bezerra (esq.) ao lado da Profª Letícia Nascimento (dir.)

 

Quando se ouve falar do Piauí em rede nacional, as pessoas não costumam esperar das notícias nada além de tragédias ou casos grotescos de corrupção. Não podemos simplesmente culpar a audiência por isso, já que o produto midiático tem um fim comercial que é alimentado pelo sensacionalismo, aspecto que cativa o brasileiro médio – no nosso caso, os piauienses – e lhe tira a curiosidade em aprender que sua terra tem muito mais a oferecer, como é o caso do livro “Transfeminismo”, de autoria da professora Letícia Nascimento. Professora e doutoranda em Educação na UFPI (Universidade Federal do Piauí), Letícia eleva o nome de nosso estado a outro patamar, ao integrar a armada literária em forma de coleção, chamada Feminismos Plurais, coordenada pela filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro. Esse conjunto de livros aborda de forma didática temas como racismo, machismo, encarceramento em massa e outras questões que tanto massacram a população preta do Brasil.

 

Para dar ainda mais força a esse trabalho – que incomoda muito o conservadorismo escravista, homofóbico, misógino e racista – Letícia Nascimento levanta uma reflexão mais que pertinente em sua obra: o transfeminismo.

 

 

 

Assim como o feminismo negro questiona estruturas raciais dentro do próprio movimento feminista, o transfeminismo também levanta a questão do feminismo que só a enxerga a mulher cis, muitas vezes excluindo de sua luta as travestis, princialmente as pretas. E isso é algo muito grave, uma vez que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Excluir as travestis da discussão, além de se fechar para um entendimento muito maior sobre as questões de gênero, é também reforçar o abandono e a fragilidade dessa parcela da população. A autora do livro, melhor que ninguém, entende essas angústias por ser travesti, preta, gorda e umbandista, características que o conservadorismo mafrense oprime e tenta aniquilar cultural e institucionalmente.

 

 

 

 

 

Na última sexta-feira, dia 30/07, Letícia quebrou mais um paradigma durante a noite de autógrafos de seu livro, ao ocupar um espaço localizado justamente no coração da “área nobre” da cidade, o Maria Café. Um ambiente extremamente acolhedor, artístico, composto de galeria e ateliê, e que pode servir de exemplo para outros estabelecimentos ao abrir suas portas para um evento tão simbólico. Ver todas aquelas travestis pretas ocupando um espaço de poder, falando com propriedade sobre sua causa mostra o quanto essa representatividade é importante e o quanto ela precisa – e vai – ocupar, sim, espaços, conservadores ou não. Por que, como bem disse a professora Letícia Nascimento “a revolução será trans e preta, ou não será”.

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