Ralph Fiennes comanda um drama de câmaras fechadas que transforma a burocracia eclesiástica em suspense de tirar o fôlego
Dois anos depois de Nada de Novo no Front vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional, Edward Berger escolheu outro ambiente de clausura total para explorar o colapso moral sob pressão. Desta vez, a trincheira é a Capela Sistina. O pano de fundo é a morte de um papa e o vácuo de poder que se abre quando as portas se fecham.
Ralph Fiennes carrega o cardeal Thomas Lawrence com uma contenção que fala mais do que qualquer discurso. Cada hesitação sua é um texto. O roteiro de Peter Straughan, adaptado do romance de Robert Harris, não desperdiça esse talento: distribui informações em dose controlada, revela alianças e segredos no ritmo de quem conhece bem o que é suspense de câmara.
A direção de arte e o figurino constroem uma autenticidade que raramente se vê em produções sobre o catolicismo. Não é cartão-postal do Vaticano. É claustrofobia litúrgica. Os tons vermelhos dos mantos cardenalícios contra o mármore branco funcionam como uma linguagem visual constante sobre poder e vulnerabilidade.
O filme trata o conservadorismo da Igreja como dado, não como problema a ser investigado. Isso limita a profundidade política que a premissa promete. As maquinações entre cardeais são críveis, mas alguns personagens secundários existem apenas como peças no tabuleiro, sem camadas próprias.
Conclave é um thriller de ideias disfarçado de drama eclesiástico. Berger sabe que o real suspense não está em quem veste o branco no final, mas no preço que cada homem pagou para chegar até ali. Fiennes entrega uma das melhores atuações do ano. Suficiente para o filme resistir quando o hype dos prêmios passar.
★★★★☆ (4/5)
Ficha Técnica
- Título: Conclave
- Direção: Edward Berger
- Roteiro: Peter Straughan (baseado no romance de Robert Harris)
- Elenco principal: Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Isabella Rossellini
- Gênero: Drama / Thriller
- Ano: 2024







