O luto processado como um truque de cena em uma obra que sufoca o espectador com atmosfera, mas tropeça em sua própria fragmentação narrativa.
Um homem caminha por um deserto árido seguido por uma criança suja de terra. Há um mapa dentro de uma garrafa de vidro. Para alcançá-lo, o homem decide usar o crânio do menino como martelo. Este prólogo brutal, extraído da ficção do protagonista, é a definição literal de “Hokum”: um truque, algo exagerado e destinado a manipular.
Damian McCarthy utiliza essa metalinguagem para desarmar o público. Até o título brasileiro, “O Pesadelo da Bruxa”, é uma espécie de engodo editorial, já que a entidade folclórica é uma presença marginal diante do verdadeiro horror psicológico. O que temos aqui é um “Healing Horror” (horror de cura) que usa o isolamento para realizar uma dolorosa hermenêutica do luto.
Situando-se no subgênero de hotéis malditos, o filme evoca a opressão de O Iluminado e 1408, mas com uma sensibilidade tipicamente irlandesa. O Billberry Woods Hotel não é apenas um cenário; é uma arquitetura da agonia que isola Ohm Bauman em um palimpsesto de traumas mal resolvidos.
Adam Scott, despindo-se da ambiguidade de Severance, entrega um protagonista que desafia qualquer tentativa de empatia imediata. Ohm Bauman é um escritor de horror alcoólatra, marcado por um “brittle detachment” (desapego quebradiço) que o torna agressivo e misantropo.
Ohm viaja à Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais no hotel onde passaram a lua de mel, carregando urnas e um revólver que parece exercer um fascínio suicida. Scott constrói um herói detestável, cujo cinismo diante do folclore local é sua principal armadura contra a dor.
Essa postura grosseira é um risco calculado. Ao privar o espectador de um “mocinho”, McCarthy nos obriga a focar na atmosfera deletéria. A jornada de Ohm não é sobre sobrevivência física, mas sobre o colapso de sua barreira cínica diante de um sobrenatural que se recusa a ser ignorado.
A direção de McCarthy transforma o hotel em um personagem vivo e hostil. Elementos como a “suíte nupcial selada” e o monta-cargas (dumbwaiter) que conecta o porão aos quartos tornam-se ferramentas de uma mise-en-scène claustrofóbica.
Tecnicamente, o filme brilha no uso da profundidade de campo (depth of field). A câmera frequentemente mantém o fundo nítido, permitindo que o espectador perceba ameaças das quais os personagens permanecem alheios. É uma técnica que gera um desconforto constante e cerebral.
O desenho de som é um capítulo à parte. McCarthy substitui o susto fácil por lamentos distorcidos (warped wailing) e a batida rítmica e persistente de sinos. Aliado à fotografia de tons amarelados e azul-esverdeados, o som cria uma sensação de estagnação temporal e podridão emocional.
Apesar do brilhantismo estético, Hokum sofre de uma dispersão narrativa que enfraquece seu impacto final. O roteiro tenta costurar três subtramas distintas que nunca chegam a formar um tecido único: o trauma familiar de Ohm, o mistério policial de Fiona e as lendas da bruxa Cailleach.
A figura de Jack the Rabbit é o exemplo mais latente dessa subutilização. Apresentado como uma memória distorcida de um apresentador de TV infantil no estilo “Bozo”, o coelho é visualmente aterrador, mas termina como um apêndice narrativo sem uma conexão profunda com o clímax.
O encerramento da jornada de Ohm com sua mãe soa abrupto e não merecido (unearned). A resolução parece vir de um susto súbito em vez de uma evolução emocional orgânica, deixando a sensação de que McCarthy é um diretor visualmente fenomenal, mas um roteirista que ainda não domina a coesão de seus próprios pesadelos.
McCarthy está claramente construindo um universo autoral, o “McCarthy-verse”, onde objetos recorrentes como o sino e o rádio servem de pontes entre Caveat, Oddity e agora Hokum. O folclore irlandês (Samhain) aqui é o pano de fundo para a palingênese — o renascimento através da dor.
A bruxa Cailleach, associada a correntes e ao arrastar de corpos, é a representação física do peso do passado. No entanto, o filme sugere que os monstros humanos e as decisões terríveis dos vivos são muito mais cruéis do que qualquer entidade milenar que habita o porão do Billberry.
Essa exploração do sobrenatural como catalisador catártico é o que eleva o filme acima da média, mesmo com suas falhas estruturais. McCarthy entende que o horror é a linguagem mais eficiente para falar sobre aquilo que preferiríamos manter enterrado.
Hokum: O Pesadelo da Bruxa é uma obra que “gruda na mente como resina”. Embora o roteiro falhe ao tentar unificar seus múltiplos fios, a força das imagens e a atuação visceral de Adam Scott garantem uma experiência de cinema que reverbera muito após os créditos.
É um filme de atmosfera pura, um teste de resistência psicológica que prova que o terror mais eficaz é aquele que nasce da nossa incapacidade de perdoar a nós mesmos. Damian McCarthy confirma seu talento para o desconforto, mesmo que ainda precise polir suas habilidades como contador de histórias.
Nota Final: ★★★★☆
Um espetáculo de angústia visual que compensa suas lacunas narrativas com um domínio magistral da tensão e do desenho de som.
Hokum: O Pesadelo da Bruxa é baseado em fatos reais? Não de forma literal, mas o filme é profundamente enraizado no folclore irlandês. Ele utiliza figuras como a bruxa Cailleach e as tradições do Samhain (o Halloween celta) para construir sua mitologia de horror psicológico.
O que significa o título original “Hokum”? O termo refere-se a algo pretensioso ou a um truque destinado a manipular o público. No contexto do filme, é uma metalinguagem do diretor sobre a natureza das histórias de terror e as mentiras que o protagonista conta para esconder seu próprio trauma.
Adam Scott está bem no papel dramático? Absolutamente. Scott foge completamente de sua persona cômica para interpretar um escritor alcoólatra e ranzinza. Sua performance é marcada por um distanciamento agressivo que convence como a representação de um homem consumido pelo cinismo e pelo luto.
O filme tem muitos sustos ou jump scares? Embora existam sustos pontuais, o foco de Damian McCarthy é o horror atmosférico. O filme aposta mais no desconforto psicológico, no silêncio e no uso inteligente do som e da profundidade de campo do que em sustos mecânicos repetitivos.
Ficha Técnica: Hokum: O Pesadelo da Bruxa
| Categoria | Informação |
| Título Original | Hokum |
| Países de Origem | Irlanda, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos |
| Ano de Produção | 2026 |
| Direção | Damian Mc Carthy |
| Roteiro | Damian Mc Carthy |
| Gênero | Terror / Suspense Psicológico |
| Duração | Aprox. 107 a 111 minutos |
| Classificação | 16 anos |
| Elenco Principal | Adam Scott, David Wilmot, Austin Amelio, Florence Ordesh, Peter Coonan |
| Produção | Roy Lee, Steven Schneider, Derek Dauchy, Ruth Treacy, Julianne Forde, Mairtín de Barra |
| Distribuição (BR) | Diamond Films |







