Oldboy 2003

Oldboy (2003): A história de vingança

Poucos filmes conseguem o que Oldboy fez: sair da Coreia do Sul, cruzar o planeta sem o empurrão de um grande estúdio e fincar raízes na cultura pop global a ponto de inspirar desde coreografias de luta em séries americanas até elogios de Quentin Tarantino. Lançado em 2003, o filme de Park Chan-wook não apenas colocou o cinema coreano no mapa: ele reescreveu o que um thriller de vingança pode ser. Mais de vinte anos depois, continua sendo uma experiência que derruba qualquer espectador desprevenido.

Antes de Tudo: a Trilogia da Vingança

Oldboy não é um filme isolado. Ele é a peça central da Trilogia da Vingança de Park Chan-wook, composta também por Sympathy for Mr. Vengeance (2002) e Lady Vengeance (2005). Cada filme aborda a vingança por um ângulo diferente: o primeiro explora as consequências em cadeia de um ato impulsivo, o segundo, Oldboy, investiga a vingança como prisão emocional, e o terceiro examina a vingança planejada com frieza ao longo de anos.

Você não precisa assistir aos outros dois para entender Oldboy. As histórias são completamente independentes, com personagens e tramas distintas. O que os une é o tema, o tom e a assinatura visual de Park Chan-wook. Dito isso, assistir aos três em sequência é uma das experiências mais devastadoras que o cinema pode oferecer. A ordem sugerida é a de lançamento: Sympathy for Mr. Vengeance, Oldboy e Lady Vengeance.

A Trama

Oh Dae-su (Choi Min-sik) é um homem comum, talvez um pouco mais descontrolado que a média. Numa noite de 1988, ele é preso por embriaguez e perde o aniversário de quatro anos da filha. Seu amigo Joo-hwan paga a fiança e o busca na delegacia. Dae-su liga para casa, fala com a filha ao telefone. Depois desaparece.

Ele acorda em um quarto de hotel lacrado. Pelos próximos quinze anos, Dae-su não verá outro ser humano. A comida chega por uma portinhola. A única janela para o mundo é uma televisão: por ela, ele descobre que foi incriminado pelo assassinato da esposa. Ele não sabe quem o prendeu. Não sabe por quê. Dentro do quarto, treina boxe vendo programas de luta, enche cadernos com nomes de pessoas que poderiam ter motivos para odiá-lo, tenta o suicídio, enlouquece aos poucos.

Então, tão inexplicavelmente quanto foi preso, ele é solto. Tem cinco dias para descobrir quem arruinou sua vida e por quê.

O que torna a premissa tão eficaz não é a originalidade do ponto de partida: O Conde de Monte Cristo atravessou séculos com estrutura semelhante. Park Chan-wook não está interessado apenas em responder “quem” e “por quê”. Ele quer que o espectador sinta cada segundo dos quinze anos de Dae-su no peso da atuação de Choi Min-sik, no desespero de um homem que perdeu tudo sem sequer saber o motivo.

O Que Faz Oldboy Ser um Clássico

Não é uma coisa só. É o acúmulo de decisões que deram certo.

A atuação de Choi Min-sik é o centro de gravidade do filme. Ele transita do descontrole alcoólatra do início ao ódio metódico do prisioneiro, e daí ao desespero animalesco de um homem que descobre que sua vingança é irrelevante diante do que lhe foi feito. A cena em que ele come um polvo vivo, real, sem efeitos, não é gratuita: é a tradução física de alguém que perdeu toda conexão com as normas humanas.

A luta no corredor merece parágrafo próprio porque mudou o cinema de ação. Filmada num plano-sequência lateral sem cortes, Dae-su enfrenta dezenas de capangas armados com um martelo. Não é uma luta coreografada com elegância: é desajeitada, exaustiva, com golpes que erram e personagens que tropeçam. Park Chan-wook filma a violência como ela seria na vida real: cansativa, suja e com consequências físicas visíveis. A cena influenciou diretamente a luta no corredor de Demolidor (Netflix), entre dezenas de outras homenagens.

A trilha sonora composta por Jo Yeong-wook é outro pilar. Mistura valsas melancólicas com batidas eletrônicas, criando uma atmosfera que oscila entre o sonho e o pesadelo. O tema principal, “The Last Waltz”, grudou no imaginário de quem assistiu ao filme e funciona como leitmotif, reaparecendo nos momentos em que a tragédia se aproxima.

A fotografia de Chung Chung-hoon fecha o conjunto. A paleta de cores saturadas, com verdes doentios e vermelhos agressivos, cria um mundo que parece ligeiramente errado o tempo todo. Não é realismo: é expressionismo. Cada quadro comunica o estado mental de Dae-su.

O Plot Twist (Alerta Máximo de Spoiler)

A partir daqui, os spoilers são inevitáveis. Se você ainda não assistiu, esta é a hora de parar de ler, entrar no MUBI e voltar depois. Oldboy é um daqueles filmes em que a ignorância do espectador é parte essencial da experiência. Ver sem saber nada é um presente raro: não o desperdice.

Dae-su descobre que seu captor é Lee Woo-jin (Yoo Ji-tae), um homem rico, estiloso e meticuloso. O motivo está no passado escolar dos dois: Dae-su viu Woo-jin e sua irmã Lee Soo-ah em um momento íntimo, os dois mantinham uma relação incestuosa. Dae-su comentou o que viu com um amigo. O boato se espalhou pela escola. Soo-ah, pressionada pelos rumores de que estaria grávida do próprio irmão, se jogou de uma ponte.

Woo-jin passou os anos seguintes planejando sua vingança com precisão cirúrgica. E então Park Chan-wook entrega o golpe final: Mi-do, a jovem que ajudou Dae-su depois que ele foi solto e com quem ele desenvolveu um relacionamento amoroso ao longo do filme, é sua própria filha. Woo-jin orquestrou tudo, do confinamento ao encontro entre os dois, usando hipnose. Dae-su não apenas foi destruído: ele foi transformado no mesmo monstro que julgou Woo-jin ser.

A revelação é devastadora não pelo choque gratuito, mas porque recontextualiza cada cena anterior do filme. A pergunta que Woo-jin lança no clímax, “você não se perguntou por que foi solto?”, expõe o espectador como cúmplice: estávamos tão envolvidos na jornada de vingança de Dae-su que esquecemos de questionar o básico.

O desfecho, com Dae-su cortando a própria língua em desespero e depois recorrendo a um hipnotizador para tentar apagar a memória do que fez, fecha o círculo da tragédia. A última imagem, o sorriso ambíguo de Dae-su sem sabermos se a hipnose funcionou, é uma das mais perturbadoras do cinema contemporâneo.

O Mangá Original

Oldboy é baseado no mangá homônimo de Garon Tsuchiya (roteiro) e Nobuaki Minegishi (arte), publicado entre 1996 e 1998. A adaptação de Park Chan-wook toma liberdades enormes: no mangá, a história é um thriller de mistério mais convencional, sem o incesto como elemento central. O plot twist devastador do filme é uma criação original do diretor e de seus corroteiristas, o que faz do longa uma daquelas raras adaptações que superam o material de origem.

Se você gostou do filme, o mangá vale a leitura como curiosidade, mas vá preparado: o tom é completamente diferente. Onde o filme é uma tragédia grega vestida de thriller, o mangá é mais investigativo, com Dae-su atuando quase como um detetive em busca de respostas.

E o Remake Americano?

Em 2013, Spike Lee dirigiu uma refilmagem americana estrelada por Josh Brolin, Elizabeth Olsen e Samuel L. Jackson. O resultado foi decepcionante. Com nota 5.8 no IMDb e 41% de aprovação no Rotten Tomatoes, o remake esvaziou tudo que tornava o original especial: a violência visceral virou ação genérica de Hollywood, o plot twist perdeu impacto e o final foi alterado para algo mais palatável ao gosto americano.

Não é um desastre completo como filme de ação: Josh Brolin se esforça e há algumas ideias visuais interessantes. Como adaptação de Oldboy, é um desserviço. Se você nunca viu nenhuma versão, vá direto ao original coreano. O remake só interessa como estudo de caso de como não adaptar uma obra-prima.

Onde Assistir

Oldboy está disponível no MUBI, plataforma de cinema de autor acessível pelo próprio aplicativo ou como canal adicional dentro do Amazon Prime Video. O MUBI oferece período gratuito de teste para novos assinantes.

Em 2023, o filme voltou aos cinemas brasileiros em versão restaurada em 4K, supervisionada pelo próprio Park Chan-wook, em comemoração aos 20 anos do lançamento. A distribuição foi da Pandora Filmes. Se houver novas reexibições no circuito, vale cada centavo do ingresso: a luta do corredor numa tela grande é outra experiência.

O filme tem versão legendada e dublada. O consenso entre os fãs é que a experiência original em coreano com legendas preserva melhor a intensidade das atuações, especialmente a de Choi Min-sik.

Oldboy não é um filme para qualquer estado de espírito. É violento. É desconfortável. Termina com uma pergunta que não tem resposta fácil. Mas também é cinema da mais alta voltagem: um thriller que funciona como estudo de personagem, uma história de vingança que vira do avesso a própria ideia de vingança, um filme que entretém e destrói em igual medida.

Quem busca ação estilizada encontra. Quem busca profundidade psicológica encontra mais ainda. Quem só quer ver a famosa cena do corredor sai com muito mais do que esperava. Park Chan-wook fez um filme que, duas décadas depois, ainda não foi superado dentro do gênero.

Filme: Oldboy (올드보이 / Oldeuboi)
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook, Hwang Jo-yoon, Lim Joon-hyung
Baseado no mangá de: Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi
Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Kang Hye-jeong
Ano: 2003
Duração: 120 minutos
País: Coreia do Sul
Gênero: Suspense, Drama, Ação
Classificação: 16 anos
Nota IMDb: 8.3/10
Rotten Tomatoes: 83% crítica / 94% público
Principais prêmios: Grande Prêmio do Júri — Festival de Cannes 2004
Onde assistir: MUBI, Amazon Prime Video (canal MUBI)
Streaming verificado em: maio de 2026