Karate Kid Lendas

KARATÊ KID: LENDAS | CRÍTICA

Sony enfim une Jackie Chan e Ralph Macchio no mesmo tatame, mas o crossover bilionário entrega mais afeto do que coragem criativa.

Fazia sentido, no papel. Se Cobra Kai conseguiu transformar o legado de Daniel LaRusso numa série de seis temporadas que soube equilibrar nostalgia com renovação, por que um filme não faria o mesmo com a fatia mais problemática da franquia — o remake de 2010 estrelado por Jaden Smith e Jackie Chan? A resposta da Sony, depois de quase quinze anos, chama-se Karatê Kid: Lendas. E o que ela entrega é um filme que entende o valor da reunião, mas não sabe o que fazer com ela.

O projeto tem ambição de franquia. Orçamento de US$ 150 milhões, um jovem protagonista descoberto em audição global, e a jogada mais esperada desde que Cobra Kai ressuscitou o Miyagi-Do: colocar Ralph Macchio e Jackie Chan frente a frente como mentores de um mesmo pupilo. Jonathan Entwistle, que estreia em longas depois de comandar a primeira temporada de The End of the F*cking World, assume a direção com a missão de costurar dois universos que, até 2023, ninguém sabia se existiam no mesmo cânone. A fusão acontece. O resultado é menos empolgante do que a ideia.

Li Fong (Ben Wang) é um prodígio do kung fu que perde o pai num acidente de carro em Pequim e se muda com a mãe (Ming-Na Wen) para Nova York. A premissa é idêntica à de 2010: adolescente deslocado, bullying na escola, acolhimento pelo Sr. Han (Jackie Chan). O roteiro de Rob Lieber não esconde a reciclagem — assume-a como ponto de partida. A diferença é que desta vez Li não é um completo novato. Ele já sabe lutar. O problema não é técnico, é emocional: o garoto não quer mais competir depois do trauma.

A estrutura narrativa segue o manual da franquia com devoção religiosa. Primeiro ato: adaptação dolorosa. Segundo ato: treinamento com o mestre improvável. Terceiro ato: torneio. O filme não quer surpreender — a familiaridade é o produto. E funciona quando Ben Wang, carismático e fisicamente convincente, ocupa o centro do quadro com a energia de quem sabe que está carregando uma tradição de quatro décadas.

A direção de Entwistle tem lampejos. As coreografias de luta, assinadas por uma equipe que mistura dublês de Hong Kong com técnicos de MMA, conseguem traduzir visualmente a tese central do filme: o kung fu flui, o karatê bate. A cena em que Li, durante uma briga de rua, alterna inconscientemente entre os dois estilos é o momento mais criativo do longa — o mais próximo que Entwistle chega de uma assinatura própria. Dialoga diretamente com a fisicalidade cômica dos clássicos de Jackie Chan dos anos 90, especialmente Arrebentando em Nova York, e faz o espectador sentir que o filme encontrou seu tom.

Mas o tom escapa rápido. A fotografia de Justin Brown é funcional até a mediocridade: Nova York aparece como cenário genérico de fundo, sem textura, sem personalidade. As inserções gráficas — letreiros coloridos e animações que estouram na tela durante os golpes — parecem saídas de um aplicativo de edição para TikTok. A intenção é clara: fisgar o público adolescente com uma estética de rede social. O efeito colateral é um filme que envelhece em tempo real, datado antes mesmo de sair do cinema.

Jackie Chan, aos 71 anos, está visivelmente mais contido. Já não salta, já não desafia a gravidade — mas ainda carrega a tela com uma presença calorosa que o roteiro insiste em subutilizar. O Sr. Han de 2025 é menos mentor e mais peça de tabuleiro: aparece quando a trama precisa mover Li de um ponto a outro, desaparece quando a profundidade seria exigida. Macchio faz o que sempre fez com Daniel LaRusso — trata o personagem com respeito quase religioso, e entrega uma ou duas cenas em que a sombra de Miyagi paira com dignidade sobre o texto. A química entre os dois veteranos existe, mas o filme a mantém em banho-maria: poucas cenas de verdadeira troca, e quando a parceria finalmente engata, o terceiro ato já está correndo para o clímax.

O elenco de apoio é desperdício qualificado. Ming-Na Wen recebe exatamente uma cena com substância e passa o resto do filme reagindo a telefonemas. Joshua Jackson interpreta Victor, um ex-boxeador endividado que convence Li a competir — subtrama que promete complexidade moral e entrega uma resolução de trinta segundos. Sadie Stanley faz uma Mia simpática, mas a química romântica com Ben Wang nunca vai além da gentileza de roteiro. Aramis Knight, como o antagonista Conor, sofre do mal mais recorrente da franquia pós-Kreese: vilão sem textura, obstáculo de torneio com meia dúzia de falas de provocação e nenhum motivo que justifique sua crueldade.

A ausência que mais dói é a de Johnny Lawrence. William Zabka aparece — numa cena pós-créditos. É a confirmação de que o filme sabe quais cartas tem na mão, mas insiste em segurá-las para uma sequência que talvez nunca venha. Para uma franquia que em Cobra Kai descobriu que a rivalidade LaRusso-Lawrence era seu motor mais potente, deixar Johnny fora do corpo do filme oscila entre cautela comercial e miopia narrativa.

A trilha sonora original não ajuda. Genérica e esquecível, nunca encontra um tema que una as duas tradições musicais que o filme tenta casar visualmente — oriente e ocidente, tradicional e contemporâneo. A escolha das canções licenciadas também patina: falta aquele momento em que a música certa transforma uma cena correta numa cena inesquecível, algo que Cobra Kai dominou com suas releituras oitentistas.

Karatê Kid: Lendas ama seus personagens, mas não confia neles o suficiente para deixá-los respirar. Funciona como portal nostálgico para quem cresceu com a franquia e como porta de entrada para uma nova geração — mas não entrega, em nenhum dos dois registros, algo que justifique sua existência além da reunião de elencos. É um crossover que acontece sem realmente acontecer. Vale para matar a saudade, mas não para criar uma nova.

Nota:★★★☆☆


Ficha Técnica

Título Original: Karate Kid: Legends — EUA, 2025
Direção: Jonathan Entwistle
Roteiro: Rob Lieber
Gêneros: Ação, Drama, Artes Marciais
Elenco: Ben Wang, Jackie Chan, Ralph Macchio, Joshua Jackson, Sadie Stanley, Ming-Na Wen, Aramis Knight, Wyatt Oleff
Duração: 118 minutos
Distribuição: Sony Pictures (cinemas)

Jorge Santos
Escrito por

Jorge Santos

Fã de carteirinha de filmes, séries, animes e quadrinhos — consome mais universos fictícios por semana do que a maioria das pessoas em um mês. Se tem história boa, já assistiu, leu ou está na fila.