Um dublê de ação, uma jaqueta de escorpião e a prova definitiva de que o cinema de gênero pode ser hipnótico quando Nicolas Winding Refn está no volante.
Maio de 2011. O Festival de Cannes exibe um filme de ação estrelado por um ator que vinha de Blue Valentine e Amor a Toda Prova no mesmo ano. A plateia aplaude de pé por dez minutos. Nicolas Winding Refn, um dinamarquês que jamais tirou carteira de motorista, foi reprovado oito vezes no exame, leva para casa o Prêmio de Melhor Direção na competição principal. O filme: Drive. O que aconteceu naquela sala escura foi o reconhecimento de algo raro: um thriller policial que recusa a pressa do gênero e aposta tudo no silêncio, na luz e na violência cirúrgica.
O roteiro de Hossein Amini adapta o romance homônimo de James Sallis, publicado em 2005, mas o material de partida é quase irreconhecível. Onde o livro é seco e fragmentado, o filme é atmosférico e envolvente. Refn não estava interessado em adaptar uma trama: ele queria construir um estado de espírito. As referências declaradas vêm do cinema americano dos anos 1980: O Vingador do Futuro, Viver e Morrer em Los Angeles, a tipografia rosa-choque dos créditos iniciais. Mas há também o DNA do cinema de Michael Mann e a economia narrativa de Walter Hill. O resultado é um neo-noir banhado a néon que opera no registro de um pesadelo elegante.
O contexto de produção merece nota. Ryan Gosling não era a primeira escolha: Hugh Jackman foi o nome inicial. Foi Gosling, já escalado, quem bateu o pé para que Refn assumisse a direção. Os dois se encontraram num jantar em Los Angeles. Refn estava gripado, dopado de remédios, e mal conseguia falar. Gosling contou a história do filme. Refn ouviu, chorou, e disse: “Eu quero fazer um filme sobre um homem que dirige à noite ouvindo música pop.” Essa anedota define o filme com mais precisão do que qualquer sinopse.
O Motorista, o personagem de Gosling que nunca recebe um nome, é um dublê de Hollywood que à noite pilota fugas para assaltantes. Mora num apartamento modesto em Los Angeles, conserta carros numa oficina comandada por Shannon (Bryan Cranston, em modo paternal e desesperado) e quase não fala. Quando Gosling e Carey Mulligan decidiram cortar a maioria dos diálogos entre seus personagens, a escolha poderia ter sido um desastre. Foi o contrário: o silêncio virou linguagem.
O Motorista não é um herói de ação tradicional. Não tem frases de efeito, não explica seus planos, não externaliza conflitos. A jaqueta branca com o escorpião dourado nas costas, um achado de figurino que Gosling descobriu num brechó, funciona como declaração de princípios. O escorpião, como a fábula que o filme cita, age conforme sua natureza. O Motorista também. A questão que o filme coloca não é se ele é bom ou mau, mas se a natureza pode ser domada pelo afeto.
A Los Angeles de Refn não é a cidade das palmeiras e do glamour. É um labirinto noturno de estacionamentos vazios, pontes de concreto, bares de strip e canais industriais. O diretor de fotografia Newton Thomas Sigel filma a cidade como um organismo hostil: belo e indiferente. Cada quadro parece pensado para durar: enquadramentos milimétricos, movimentos de câmera lentos como respiração, uma paleta que oscila entre o laranja saturado dos postes de sódio e o azul metálico do crepúsculo.
A trilha sonora de Cliff Martinez é o terceiro protagonista. Sintetizadores analógicos criam camadas de tensão que jamais se dissipam completamente, mesmo nas cenas mais ternas entre o Motorista e Irene. As canções pop — “Nightcall” de Kavinsky, “Under Your Spell” de Desire, “A Real Hero” de College & Electric Youth — funcionam como comentário emocional. Elas não ilustram: revelam o que o Motorista não consegue dizer. Quando “A Real Hero” toca pela segunda vez, no clímax emocional, a ironia do título machuca. Herói de verdade é uma categoria que este filme nunca validou sem reservas.
Drive é frequentemente lembrado pela violência, e com razão: ela chega com a força de um trovão em céu limpo. O que impressiona não é a quantidade, são três ou quatro explosões de brutalidade em 100 minutos, mas a função dramatúrgica que Refn atribui a cada uma.
A cena do elevador é o exemplo perfeito. O Motorista e Irene dividem um espaço claustrofóbico com um assassino. Ele percebe a ameaça. Vira-se, beija Irene com uma intensidade que não é desejo, é despedida. Depois, com a precisão de um cirurgião, esmaga o crânio do homem contra o chão do elevador. O beijo e a morte no mesmo plano-sequência. Não há catarse: há a constatação de que a jaqueta do escorpião nunca foi um disfarce.
Albert Brooks, numa virada de carreira que o Globo de Ouro reconheceu com indicação a Melhor Ator Coadjuvante, entrega um Bernie Rose letal e melancólico: um mafioso que usa facas de cozinha e lamenta cada morte como se fosse um acidente de percurso. A indicação foi mais do que merecida; foi tardia para um ator que passou a carreira sendo subestimado. Ron Perlman, como Nino, traz o contraponto grotesco: um gangster que se acha maior do que é e paga o preço na cena mais seca e satisfatória do filme, à beira-mar, com as ondas engolindo o som.
O problema de Drive nunca foram seus momentos de choque. O problema está nos respiros. A montagem de Matthew Newman estica os silêncios até o limite do confortável, e em duas ou três passagens a cadência beira a afetação. A narração em off do desfecho, com a carta do Motorista para Irene, tropeça num sentimentalismo que o resto do filme evitou com elegância. É um deslize breve, mas perceptível: como se Refn, no último minuto, duvidasse da força da imagem que ele próprio construiu.
Drive tem cena pós-créditos?
Não. Drive não tem cenas durante ou após os créditos. Quando a tela escurece, a história acabou. O que sobra é o debate sobre o destino do Motorista — e esse, Refn prefere deixar em aberto.
Onde assistir Drive no Brasil?
Drive está disponível no Amazon Prime Video. Também pode ser alugado ou comprado digitalmente no Google Play, YouTube e Apple TV. O filme saiu do catálogo da Netflix Brasil em novembro de 2023. Duração: 100 minutos.
O Motorista morre no final de Drive?
Refn nunca confirmou. O Motorista leva uma facada profunda de Bernie Rose, vence o confronto e dirige para longe: ferido, imóvel ao volante, enquanto a noite engole o carro. A cena ecoa a parábola do escorpião que o filme apresenta no início. A interpretação dominante entre os fãs é dupla: ou ele morre como o escorpião da fábula, fiel à sua natureza; ou sobrevive, condenado à solidão que sua natureza impõe. As duas leituras funcionam. Nenhuma é feliz.
Preciso ler o livro de James Sallis antes de ver Drive?
Não. O livro de James Sallis é excelente, mas o filme toma liberdades enormes com a trama, o tom e a estrutura narrativa. São experiências independentes: o livro é mais introspectivo e fragmentado; o filme, mais sensorial e estilizado. Assistir primeiro e ler depois é o caminho mais gratificante.
Drive permanece como um marco do cinema policial contemporâneo por provar que o estilo pode, sim, ser substância. É uma obra indispensável para quem busca um thriller de ação focado na atmosfera, na trilha sonora marcante e na narrativa visual detalhada, distanciando-se de fórmulas comerciais gastas através de uma direção corajosa e autoral.
Nota: ★★★★☆
Ficha Técnica
Título Original: Drive
País/Ano: Estados Unidos, 2011
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini (baseado no romance homônimo de James Sallis)
Gêneros: Neo-noir, Drama, Suspense, Ação, Policial
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Ron Perlman, Christina Hendricks, Kaden Leos
Direção de Fotografia: Newton Thomas Sigel
Montagem: Matthew Newman
Música: Cliff Martinez
Duração: 100 minutos
Classificação Indicativa: 16 anos
Distribuidora: FilmDistrict
Streaming: Amazon Prime Video, Google Play, YouTube, Apple TV
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