Bailarina - Do Universo de John Wick

Crítica Bailarina: do universo de john wick a elegância do caos encontra o peso da vingança

Ana de Armas assume o manto da Ruska Roma em um derivado que expande a mitologia do Continental com coreografias brutais, mas paga o preço de imitar demais o que Keanu Reeves já consolidou.

O universo de John Wick deixou de ser uma surpresa sobre um homem e seu cachorro para se tornar a franquia de ação mais influente da última década. O que Chad Stahelski e David Leitch começaram em 2014 redefiniu o “gun-fu” e resgatou a importância da dublagem e da clareza visual nas grandes produções de Hollywood. Agora, com Bailarina, a Lionsgate enfrenta o desafio de provar que esse ecossistema de assassinos sobrevive sem a presença constante de seu protagonista original. A obra chega em um momento de saturação de spin-offs: o público exige mais do que fan service para validar uma nova ramificação narrativa.

Expandir uma mitologia tão específica exige escolhas difíceis sobre o que preservar e o que reinventar. Se The Continental explorou as raízes setentistas do hotel, Bailarina se posiciona cronologicamente entre o terceiro e o quarto capítulo da saga principal. A escolha por Ana de Armas como protagonista não é por acaso: a atriz já havia roubado a cena em 007: Sem Tempo Para Morrer com uma fisicalidade impressionante. Aqui, ela precisa carregar o peso de uma organização milenar, a Ruska Roma, enquanto busca um acerto de contas pessoal que serve de motor para a trama.

A premissa de Bailarina mergulha nas origens de Rooney, uma assassina treinada pela diretora interpretada por Anjelica Huston. O filme não perde tempo com introduções excessivas, lançando o espectador diretamente no rigoroso e quase místico treinamento das bailarinas que também são carrascas. A narrativa se desdobra como um thriller de vingança clássico, mas com a roupagem luxuosa e neon que se tornou a assinatura visual da franquia. Rooney está caçando os responsáveis pelo extermínio de sua família, um caminho que a leva a cruzar fronteiras e enfrentar burocracias letais do submundo.

Diferente da jornada de luto de John Wick, a busca de Rooney é alimentada por uma fúria mais jovem e menos refinada. Isso se traduz na forma como ela luta: há menos precisão matemática e mais improviso desesperado. O filme acerta ao mostrar que ela ainda não é a lenda imparável que conhecemos, mas alguém em formação. As participações especiais, embora gratificantes para os fãs, interrompem o ritmo da jornada individual a cada vez que o filme precisa costurar o enredo à saga maior.

O roteiro de Shay Hatten tenta dar profundidade emocional a uma personagem que habita um mundo de poucas palavras. O diálogo é afiado quando foca na hierarquia da Alta Cúpula, mas cai em clichês de gênero durante os momentos de exposição do passado de Rooney. A estrutura narrativa segue o padrão de “fases”, quase como um videogame, onde cada encontro leva a uma peça maior do quebra-cabeça. É uma abordagem funcional, mas que carece da elegância minimalista do primeiro filme de 2014.

Um dos pontos altos do texto é a exploração da Ruska Roma: entender os códigos de honra, as tatuagens e o sacrifício exigido por essa facção adiciona peso dramático que justifica o sofrimento da protagonista.

O vilão da vez, porém, não possui o carisma magnético de antagonistas anteriores como Santino D’Antonio. Serve mais como um obstáculo físico do que como uma ameaça intelectual, o que enfraquece o clímax emocional da vingança. O roteiro parece ter medo de deixar Rooney caminhar sozinha, recorrendo a muletas narrativas para garantir que o público não se sinta perdido.

Ana de Armas entrega o que pouquíssimas estrelas de ação conseguem hoje: vulnerabilidade real combinada a uma presença física que intimida. Em cenas de combate corpo a corpo, a atriz executa sequências longas sem o recurso de cortes rápidos que costumam esconder o que o corpo de dublê fez. Sua Rooney é expressiva; sentimos cada golpe recebido, o que torna sua resiliência muito mais palpável do que a aparente invulnerabilidade de Wick.

Anjelica Huston e Ian McShane retornam com a tranquilidade de quem nunca precisou provar nada nesses cenários. McShane, em particular, entrega suas falas com a ironia refinada de sempre, servindo como o tecido conjuntivo necessário para o spin-off. A química entre De Armas e os personagens estabelecidos funciona, mas são os momentos em que ela carrega o peso sozinha, com o corpo exausto fazendo o trabalho emocional, que o filme justifica sua existência.

A direção de Len Wiseman busca emular o estilo de Stahelski, mantendo a câmera aberta e permitindo que as coreografias de luta respirem. A fotografia abusa de contrastes térmicos: o frio das ruas europeias contra o calor dourado dos interiores luxuosos, mantendo a identidade visual estabelecida por Dan Laustsen na franquia principal. A montagem é ágil, mas respeita a continuidade espacial, algo essencial para que o espectador entenda a geografia de cada tiroteio.

A trilha sonora mantém o pulso eletrônico misturado a elementos clássicos, acentuando o contraste da “bailarina assassina”. O design de produção vai bem ao expandir os ambientes da Ruska Roma, transformando teatros e escolas de dança em fortalezas góticas. Se há uma falha técnica, é a dependência ocasional de efeitos visuais em cenas de impacto que, nos filmes originais, pareciam mais práticos e sujos. O brilho excessivo de certas explosões tira o realismo tátil que tornou John Wick uma referência de sobriedade visual em meio ao caos.

Bailarina entrega o que promete: Ana de Armas em cenas de combate que rivalizariam com qualquer capítulo da franquia original. O problema é que o filme sabe disso e fica ansioso demais para provar. Quando para de competir com Keanu Reeves e deixa Rooney ser Rooney, há algo genuíno ali. Quando precisa lembrar o público onde ela mora, o fôlego some.

Nota: ★★★★☆

Ficha Técnica Ballerina – EUA, 2025.

Direção: Len Wiseman Roteiro: Shay Hatten

Elenco: Ana de Armas, Keanu Reeves, Ian McShane, Anjelica Huston, Norman Reedus, Gabriel Byrne

Duração: 115 minutos

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