Park Chan-wook transforma uma investigação de assassinato em uma dança de sedução e obsessão, entregando seu filme mais maduro e melancólico.

Park Chan-wook sempre soube filmar a devastação. De Oldboy a A Moça, o cineasta sul-coreano construiu uma carreira calcada na violência estilizada e na vingança barroca. Agora, ele troca o machado pelo desejo contido. Decisão de Partir chega com a palma da mão aberta, mas com os dedos ainda sujos de terra.
O longa saiu de Cannes com o prêmio de direção, e a escolha faz sentido. Chan-wook refina sua mise-en-scène para contar uma história em que o suspense policial é só uma desculpa. O que interessa de verdade é a geometria do olhar. O fantasma que mais paira sobre o filme é Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, mas o filme respira mais perto da melancolia de No Limite das Emoções, de Wong Kar-wai.
O detetive Hae-jun (Park Hae-il) investiga a morte de um escalador encontrado nas rochas de uma montanha. A principal suspeita é a viúva, Seo-rae (Tang Wei), uma imigrante chinesa que trabalha como cuidadora de idosos. O roteiro não esconde que ela mente. O interesse está em como Hae-jun lida com essa mentira. Ele a observa pelo binóculo, estuda os seus gestos e, lentamente, começa a se colocar na posição de vítima voluntária.

A química entre os dois não surge do afeto fácil, mas do atrito investigativo. Tang Wei entrega uma atuação cálida e opaca, sem que uma qualidade cancele a outra. Ela faz de Seo-rae um enigma que não pede para ser decifrado, mas sim aceito. Park Hae-il carrega o cansaço de quem não dorme, mas encontra na suspeita a única razão para permanecer acordado.
O grande achado do filme está nos smartphones. Os celulares substituem o toque físico e funcionam como o mecanismo de sedução central. Quando Hae-jun pede o aparelho de Seo-rae para conferir as traduções no aplicativo, a cena tensa vira uma das declarações de amor mais originais do cinema recente.
O desejo mora na tela do celular, no espaço entre o ditado e a tradução.
Se a primeira metade é um procedural de folhetim, a segunda muda o registro. A relação se consuma e o filme abandona a estrutura de “quem matou?”. Chan-wook troca a investigação criminal pela obsessão romântica, invertendo os papéis com uma naturalidade que rasura o gênero. O detetive vira o criminoso e a suspeita assume o papel de autoridade emocional.
A direção conduz esse balé com método de relojoeiro: espelhos, portas e janelas frameia a distância intransponível entre os protagonistas. A montagem corta o espaço e o tempo de forma a confundir o que é vigiar e o que é cortejar. Quando os dois finalmente se beijam, a câmera não foca na boca, mas nos pés que se arrastam num quarto de hotel. O desconforto físico diz mais do que qualquer close.

O título original, Heojil gyeolsim, carrega o duplo sentido de decidir se apartar ou decidir se entregar. O desfecho escolhido por Chan-wook custa a chegar, mas marca o espectador com uma cena de montagem literal. É um final que não explica, apenas sepulta. Não há redenção, apenas a escolha solitária de quem prefere ser soterrado a ter que sair.
Decisão de Partir está disponível no streaming da MUBI para assinantes. O longa também pode ser alugado ou comprado digitalmente no Prime Video e na Apple TV.
Decisão de Partir é para quem busca um thriller que escorregue das mãos e vire melancolia na tela. Park Chan-wook entrega o melhor filme de sua fase madura, provando que a ausência de sangue pode ser tão devastadora quanto a vingança. Quem espera catarse vai sair perturbado. Quem aceita a ferida, vai sair marcado.
Nota: ★★★★★
Ficha Técnica
Decisão de Partir (Heojil gyeolsim) Coreia do Sul, 2022
Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Park Chan-wook, Chung Seo-kyung
Gêneros: Suspense, Romance, Policial, Noir
Elenco: Tang Wei, Park Hae-il, Lee Jung-hyun, Go Kyung-pyo
Duração: 138 minutos







