Crítica do filme Amado 2022

Amado 2022: O justiceiro de Ceilândia que o cinema brasileiro insiste em aplaudir

Edu Felistoque e Erik de Castro entregam um thriller policial tecnicamente funcional, mas que tropeça feio ao glorificar o justiceiro de farda sem nunca se perguntar o que acontece quando o herói se torna indistinguível do vilão.

Amado 2022 vale a pena assistir

Quinze anos depois de Tropa de Elite incendiar o debate nacional sobre violência policial, com leituras apaixonadas tanto de quem via denúncia quanto de quem via manual, o cinema brasileiro volta a pisar nesse terreno minado. Só que agora com menos ambiguidade e mais convicção. Amado não quer que você se pergunte se o capitão Nascimento é fascista. Amado quer que você bata palma para o cabo que mata bandido com uma facada e depois justifica o feito como quem comenta o resultado do futebol.

A produção é brasiliense, assinada por Erik de Castro (roteiro e codireção) e Edu Felistoque (codireção e montagem). Castro já havia explorado o submundo da segurança pública do DF em Federal (2010) e Cano Serrado (2019). Com Amado, fecha uma espécie de trilogia informal sobre policiais operando no limite da legalidade, ou muito além dele. O filme se ancora no letreiro que abre e fecha a projeção: “Baseado em eventos reais” e “Amado existe”. Como se a realidade, por si só, bastasse para validar o que se vê na tela.

Mas ficção e realidade não jogam com as mesmas regras. O que acontece na vida pode ser absurdo, incoerente, contraditório. O que acontece num filme de 91 minutos precisa se sustentar em cena, e é aí que Amado começa a fazer água.

Ambientado em Ceilândia, periferia do Distrito Federal, o filme acompanha o cabo Amado (Sérgio Menezes), um policial militar que se recusa a entrar no esquema de corrupção que seus colegas operam com naturalidade. Numa abordagem noturna, ele e sua equipe interceptam dois criminosos com objetos ilegais e R$ 20 mil em espécie. A orientação de um sargento superior é clara: some com os bandidos, divida o dinheiro, todo mundo sai feliz. Amado diz não. A partir desse gesto, que deveria ser o mínimo e não um ato heroico, o filme constrói sua mitologia em torno do “policial honesto”, tratado como uma aberração da natureza, um unicórnio de distintivo.

Amado 2022 é bom filme de suspense policial

A comparação com Perseguidor Implacável (1971), de Don Siegel, é inevitável e já foi feita por mais de um crítico. Mas a diferença de perspectiva entre os dois filmes é abissal. Don Siegel filmava Harry Callahan com distanciamento: a câmera recuava quando o inspetor cruzava a linha, deixando o espectador sozinho com seu julgamento. Felistoque e Castro fazem o oposto: colam o close no rosto de Amado e cortam para a cena seguinte com a justificativa já empacotada. Era estuprador. A coronel concorda. Ponto. O filme não quer debate. Quer absolvição.

O roteiro de Erik de Castro é econômico a ponto de ser raso. Sabemos que Amado gosta de uma prostituta da região, que faz artesanato em ferro e que tem dois peixinhos. Só. São pistas de humanidade jogadas como quem cumpre tabela, nunca desenvolvidas como gatilhos dramáticos. A paixão do protagonista, por exemplo, é comunicada por uma cena em que ele dança sozinho em casa, solução curiosamente brega para um personagem que o filme inteiro insiste em tratar como homem de poucas palavras e zero afetação. Um close num porta-retrato ou num objeto da mulher amada teria dito mais com menos esforço.

As sequências de ação são fartas, mas anêmicas. Tiroteios se resolvem com planos abertos em que os alvos simplesmente caem. Falta o plano-detalhe do impacto, o sangue que convence, a coreografia que coloca o espectador dentro do confronto. Quando uma moto desliza para baixo de um carro e explode, a artificialidade remete menos a John Woo e mais aos seriados policiais da TV brasileira dos anos 1980. A montagem de Felistoque até impõe um ritmo enérgico, e o desenho de som revela cuidado técnico. Mas energia sem peso dramático é só barulho bem organizado.

Sérgio Menezes é um ator talentoso e subaproveitado. Aqui recebe uma direção que o abandona à própria sorte: a mesma expressão fechada para a raiva, para a paixão, para o luto. O problema não está no ator, mas na ausência de direção de atores. Alexandre Barillari, promessa de galã nos anos 1990 que o cinema brasileiro nunca abraçou de verdade, entrega uma presença sólida como o antagonista dentro da corporação. Brenda Lígia, no pouco que o roteiro lhe concede, demonstra fome de ir além do que lhe pedem.

Onde assistir Amado no streaming

Adriana Lessa é criminosamente desperdiçada atrás de uma mesa burocrática, em aparições que não chegam a cinco minutos somados. Igor Cotrim, Gabriela Correa, Neco Vila Lobos, Sérgio Cavalcante: todos competentes, todos subutilizados. Amado reúne um elenco que merecia um filme melhor.

Depois de 60 minutos transitando entre a denúncia e a glorificação, o filme abandona qualquer precaução e mergulha de cabeça no justiceiro descontrolado. A namorada de Amado é assassinada, numa sequência que desperdiça qualquer oportunidade de suspense com um corte paralelo que não tensiona, apenas informa. O que era contenção vira chacina. O protagonista adota exatamente os mesmos métodos que o filme passou uma hora condenando como corruptos e desumanos. A diferença? Ele é o herói, então está tudo bem.

Esse é o problema central de Amado: não se trata de um filme sobre um policial complexo operando em terreno moral pantanoso. Trata-se de um filme que compra o discurso do seu protagonista sem lhe fazer uma única pergunta difícil. Quando a ficção decide que “bandido bom é bandido morto” e não oferece contraponto nenhum, a não ser um soldado “bonzinho” que logo morre para provar que bondade não funciona, ela deixa de ser entretenimento inofensivo. Vira panfleto.

É revelador que o longa nunca dê voz ao cidadão comum de Ceilândia. A comunidade aparece como cenário, nunca como sujeito. A namorada prostituta existe para ser assassinada e justificar a vingança. Os moradores existem para serem salvos ou ameaçados. Ninguém tem agência exceto os policiais. Alemão 2 (2022), que cobre terreno temático semelhante, acerta justamente onde Amado falha: ao posicionar a câmera no ponto de vista de quem sofre a violência, não de quem a pratica.

Amado é um filme bem-intencionado na superfície e profundamente irresponsável no subtexto. Funciona como thriller de ação para quem quer ver bandido caindo e herói vingador. Nesse recorte, entrega o que promete com competência técnica razoável. Mas como retrato da violência policial brasileira em 2022, é um passo atrás. Onde Tropa de Elite provocava desconforto com sua ambiguidade calculada, Amado oferece certezas baratas. E certeza, no cinema político, costuma ser o primeiro sintoma da propaganda.


Nota: ★★☆☆☆

Ficha Técnica

Amado, Brasil, 2022.

Direção: Edu Felistoque, Erik de Castro

Roteiro: Erik de Castro Gêneros: Ação, Drama, Policial

Elenco: Sérgio Menezes, Adriana Lessa, Gabriela Correa, Brenda Lígia, Alexandre Barillari, Igor Cotrim, Neco Vila Lobos, Sérgio Cavalcante

Duração: 91 minutos

Distribuição: Downtown Filmes