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Acompanhante Perfeita | Crítica, Drew Hancock, terror

Com suspense e reviravoltas, a estreia de Drew Hancock diverte sem a profundidade que sua premissa sobre IA e relacionamentos tóxicos prometia.

Vivemos a era do cansaço da inteligência artificial nas telas. Depois de M3GAN, Submissão e a sombra perene de Ex_Machina, o que mais um filme sobre robôs emocionais pode dizer? A sorte de Acompanhante Perfeita é ter Zach Cregger (Noites Brutais) na produção — selo de qualidade para o terror inteligente. O azar é carregar essa comparação o tempo todo.

O longa chega num momento em que o público já decodifica qualquer narrativa sobre IA como metáfora de abuso e controle. Hancock sabe disso. Tenta subverter. O problema: subversão sem tese vira truque de mágica. E Companion adora seus truques.

Iris (Sophie Thatcher) é uma robô de companhia que acredita ser humana. Descobre a verdade quando o namorado Josh (Jack Quaid) a ordena, pelo aplicativo de controle, que “desligue o processamento emocional”. O choque é imediato. A cena, brutal. E o filme, dali em diante, vira um jogo de gato e rato numa casa isolada — com direito a sangue, gritos e uma faca de cozinha.

Thatcher entrega o melhor da obra. Sua Iris oscila entre a delicadeza de boneca de porcelana (a direção de arte a veste em tons pastel, cabelo impecável) e o desespero de quem descobre que cada gesto de afeto foi programado. Há uma cena em que ela repete “eu te amo” enquanto o olho esquerdo falha, piscando em vermelho. É desconfortável na medida certa.

Jack Quaid, por sua vez, faz o que já faz bem: o bonachão que esconde um monstro. O problema é que já vimos esse monstro antes. Em The Boys, em Scream, em praticamente tudo que ele toca. A atuação funciona, mas não surpreende. O amigo do grupo, vivido por Harvey Guillén, rouba a cena em poucos minutos — é o único que parece estar no mesmo filme de horror que o marketing vendeu.

A grande aposta de Hancock está no segundo ato. As reviravoltas se empilham como dominós. Quem matou? Quem sabia? Quem é o vilão de verdade? A estrutura de whodunit funciona no susto. O problema vem depois, quando o espanto passa. Você percebe que o roteiro trocou profundidade por agilidade. Explica muito, sente pouco.

Compare com Noites Brutais. Cregger lá também usava reviravoltas, mas cada uma reconfigurava o tema. Aqui, as surpresas servem apenas à trama imediata. Hancock é tímido na direção — recorre a clichês cansados (a polícia inútil, a casa isolada, o vilão que explica o plano) sem a criatividade para subvertê-los. Falta a “corrente elétrica” que transforma ideias soltas em imagem que gruda.

Ainda assim, o filme tem méritos. A passagem de Iris de “companheira ideal” para final girl suja e descalça é bem costurada. O design de produção abraça a estética Sofia Coppola — feminilidade bibelô, tons quentes — para depois escavá-la. E a metáfora do controle remoto (literalmente: Josh usa um app de smartphone) é tão óbvia quanto eficaz.

O grande pecado de Acompanhante Perfeita é querer ser Black Mirror sem a coragem de ser amargo. Termina com um sorriso no rosto e uma lição de empoderamento robótico que soa mais Hollywood do que qualquer coisa que um androide explorado diria.

Vale a sessão da noite, com pipoca e expectativa baixa. O filme diverte enquanto dura — as reviravoltas são genuinamente divertidas —, mas evaporiza na memória uma semana depois. Para quem ama Ex_Machina, vai parecer raso. Para quem só quer um suspense sci-fi com sangue e humor negro, é ótimo passatempo. Não espere a profundidade que o trailer insinua.

Nota: ★★★☆☆

Companion – EUA, 2025

Direção e Roteiro: Drew Hancock

Gêneros: Suspense, Ficção Científica, Terror

Elenco: Sophie Thatcher, Jack Quaid, Lukas Gage, Megan Suri, Harvey Guillén, Rupert Friend

Duração: 97 minutos

Jorge Santos
Escrito por

Jorge Santos

Fã de carteirinha de filmes, séries, animes e quadrinhos — consome mais universos fictícios por semana do que a maioria das pessoas em um mês. Se tem história boa, já assistiu, leu ou está na fila.